Funk, putaria e consciência

Mc Hariel lidera a música "Ilusão (Cracolândia)" ao lado do DJ Alok

E continuamos a falar sobre o que a música foi em 2020, e o que ela será em 2021. Na semana passada eu falei sobre a pisadinha. Mas hoje vamos conversar sobre um gênero musical que está na berlinda há muito mais tempo: o Funk. Entre os destaques do ano, está a categoria que tem sido chamada de “funk consciente”. E como você já deve imaginar, esse destaque já está esbarrando com o novo POP brasileiro. Isso precisa ser discutido, além do próprio nome “consciente”. Vamos fazer tudo isso já já. Mas primeiro, os refrescos.

Um dos grandes destaques é o Mc Paulin da Capital, dono de hits como “Eu achei”. A música e o clipe tem um roteiro sobre o roubo de uma moto, com direito a final feliz. A trama representa o que o funk consciente é: as letras se aproximam muito do rap, falando sobre a vida na periferia e vários de seus problemas. Diga-se de passagem, as motos (chamadas carinhosamente de robôs) são uma das grandes musas desse estilo musical.

Mas outra característica marcante do funk consciente é a veia religiosa. Muitos MC’s tiveram uma formação evangélica, e isso se mostra nas letras de superação, como em “Sou vitorioso” do MC Lele JP. Se você perceber que a autoajuda é um tema comum na música gospel neo-pentecostal, justamente o tipo de igreja mais comum nas periferias dos grandes centros, verá que as coisas vão se encaixando.  

Esse tipo de funk acumulou números expressivos em 2020, especialmente nas visualizações do YouTube. Mas vamos focar em um lançamento: a canção “Ilusão (Cracolândia)”. Lançada em Novembro, a música é encabeçada pelo MC Hariel, além de MC Ryan SP, MC Davi, Salvador da Rima e DJW. E o que realmente chamou a atenção da mídia é que nesse time também está o DJ Alok. Essa parceria é justamente o nó entre as duas questões que eu mencionei no primeiro parágrafo: o nome “consciente”, e a entrada no novo POP-BR. Sem o primeiro, não dá pra entender o segundo.



Consciência na cabeça de baixo

O grande problema do nome “funk consciente” é deixar implícita a ideia de que as outras formas de funk são alienadas. Até na mídia especializada, é comum os jornalistas falarem do funk consciente como uma forma de evolução das duas últimas fases do funk paulistano: putaria nos anos 1990/2000, e ostentação nos anos 2000/2010. É aquele preconceito que, segundo o livro da antropóloga Rita Morelli, predomina entre os críticos há décadas: se a música não fala abertamente de questões políticas e sociais, então ela seria menos importante.

Esse é um assunto que Ney Matogrosso trata na sua autobiografia, Vira-lata de raça. Ele conta que Os Secos e Molhados foram duramente criticados pelas esquerdas porque traziam uma música sensual, lúdica ao ponto de atrair um grande público infantil, mas não seria suficientemente militante. A opinião do intérprete em sua biografia é: provocar os comportamentos morais e sexuais também não é uma forma de crítica política? Se você prestar atenção, vai ver que é justamente disso que se trata a música POP.

Os termos confundem muita gente, mas POP não é sinônimo de mainstream, não é sinônimo de líder de mercado. Segundo a retrospectiva Spotify 2020, o gênero mais ouvido no mundo é o rap (Bad Bunny) e o mais ouvido no Brasil é o Sertanejo (Marília Mendonça). POP é um gênero musical, que costuma reunir ritmos dançantes, música eletrônica, e letras vulgares ligadas a movimentos sociais urbanos (feministas, minorias étnicas e comunidade LGBTQIA+). 

O que chamamos hoje de novo POP-BR é fruto desse encontro entre a putaria, a ostentação e a classe média politicamente engajada. Embora ainda haja gente que discorde, a periferia está igualmente consciente quando grita palavras de ordem, quando faz orações e quando fala palavrão. 


Negócios na cabeça de cima

Segundo o DJ GM, um dos grandes produtores da cena de funk consciente, a pandemia ajudou a alavancar esse gênero: sem a possibilidade de fazer bailes, o funk com letras eróticas e festivas perde importantes espaços de consumo, e deixa as pessoas mais necessitadas das letras de confronto e esperança do funk consciente. Mas o fato dessas músicas terem mais destaque no YouTube do que no Spotify é um forte indício de que ainda existe uma distância entre a voz da periferia e a voz da classe média. A música Ilusão (Cracolândia) pode ser um passo importante para trazer o funk consciente para dentro do POP-BR. Prova disso é que, em poucas semanas, a faixa alcançou primeiro lugar no Top 50 do Spotify e primeiro lugar no Top 100 do Deezer. 

Independente das opiniões sobre arte e política, qualquer destaque para a cultura que vem da periferia precisa ser levada muito a sério. As letras de protesto podem estar em qualquer gênero, mas a batida do funk é tão descontraída que deixa esse protesto ainda mais desconcertante. A batida lembra que, em meio ao protesto e à escassez, também existe beleza e abundância de vida. No meio da dor, também pode existir a delícia. Ou as motos. Ou a fé. Ou até mesmo um super artístico foda-se. 


Edson Nova é cantor e jornalista. Toda terça-feira sai um novo artigo sobre o universo da cultura POP. Compartilhe agora, e siga no Instagram e no Twitter.







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