A pisadinha é a nova MPB

Os Barões da Pisadinha representando um novo momento na música brasileira.

Esse título é sim um clickbait, mas nem por isso é menos verdadeiro. Vamos conversar e nos entender. Neste começo de dezembro, o Spotify liberou a retrospectiva com o conteúdo mais ouvido ao longo do ano. A Pisadinha foi a grande surpresa, aparecendo ao lado do Sertanejo e do POP/Funk nos estilos musicais mais ouvidos do Brasil. Aplicativo líder no mercado de música digital, tendo quase o dobro de assinantes do segundo colocado Apple Music, a retrospectiva do Spotify já é um dos maiores eventos do mercado de música no mundo. E os rankings de 2020 deixaram alguns narizes torcidos.

A inspiração para esse artigo veio de um post feito pela página da TV Cultura no Facebook, anunciando a principal revelação do ano: os Barões da Pisadinha. Você já pode imaginar o tipo de comentário que deixaram - digno do pensamento filosófico de quase 100 anos atrás. Mas agora os holofotes estão sobre eles. Na sexta posição entre os artistas mais ouvidos no Brasil, quinta posição na lista dos homens, os barões são os maiores representantes desse novo gênero que tem incomodado tanto.

Como todos os gêneros da música popular, definir a pisadinha não é algo tão exato. Mas, grosso modo, pode-se dizer que é uma variação do forró, misturada com a música eletrônica. O principal formato é o acompanhamento todo feito com um teclado, tanto a percussão quanto a harmonia. Letras de amor, desamor, vida na periferia ou interior, na clássica levada “dois pra lá, dois pra cá”, e os timbres de sintetizadores. Você deve ter percebido que esse formato não é muito distante do tecnobrega paraense, que virou um ritmo cult em 2012, com a voz de Gaby Amarantos e a direção do saudoso Miranda no álbum Treme.  

E é aqui que chegamos a uma encruzilhada a respeito da música brasileira. Primeiro: temos um claro conflito entre os números do mercado fonográfico e uma bela parcela da classe média. Segundo: temos ritmos musicais parecidos, mas que hoje têm status bem diferentes na opinião dessa mesma parcela. Não sei vocês, mas eu adoro pensar sobre esse tipo de contradição! Claro que não dá pra esgotar esse tema por aqui: ele rende tranquilamente uma tese de doutorado. Mas me ajude a pensar em algumas hipóteses.


O Brasil não quer se ouvir

Você já teve a sensação de que a música antiga era mais sofisticada, mais complexa do que a música atual? Já teve a sensação de que a música antiga tratava de temas mais sérios, não tão passionais quanto a música atual? E para usar uma expressão comum, já teve a sensação de que a cultura está “em decadência”? Eu sinto em te dizer que tudo isso realmente não passa de uma sensação, sem relação com os fatos. A questão aqui é o maior problema enfrentado pelos historiadores: a confusão entre História e Memória.

História é o relato que se baseia em métodos e evidências. Já “Memória” é o relato afetivo daquilo que queremos lembrar. Por isso você acha que no seu tempo é que era bom. Desculpa, mas o seu tempo não tinha nada de especial em relação aos outros tempos. E quando falamos da história da música popular brasileira, essa confusão entre História e Memória é enorme. Eu já escrevi um artigo especialmente sobre isso: leia aqui.

A música mais sofisticada, e com temas mais sérios, é apenas o tipo de música que uma certa elite intelectual prefere lembrar. Na imprensa dos Estados Unidos, há décadas existem rankings e críticas sérias sobre as músicas de maior apelo popular (como na Billboard e no Rotten Tomatoes). Ou seja, é mais fácil achar documentos sobre as músicas mais ouvidas do século XX. No Brasil isso já é mais difícil de demonstrar. Mas desde Orlando Silva (anos 1930) até Marília Mendonça (a mais ouvida do Brasil no Spotify em 2020), fica claro que a música romântica tem sempre o maior apelo popular no nosso país. A cultura latina está sempre passando pelo melodrama, e isso é História!

Eu vou ser até mais ousado. No livro “Chega de saudade”, o jornalista Ruy Castro conta que os cassinos eram o principal espaço de trabalho para cantores brasileiros de Jazz, como Dick Farney. Depois, as casas noturnas pagaram os primeiros salários de nomes como Tom Jobim e Newton Mendonça, grandes compositores da Bossa Nova. Ou seja, a cadeia produtiva da música sempre esteve associada a outras formas de entretenimento consideradas menos nobres (sexo, drogas e jogos de azar). Melhor pensar duas vezes antes de falar sobre "decadência".


O Brasil vai ter que se ouvir

Mais uma vez eu me pergunto: por que um expressivo grupo de músicos, jornalistas e intelectuais insiste em ignorar a História contada pelos números? Mesmo quem se diz progressista parece negar isso. Mais uma contradição interessante: quem prega a inclusão das diferenças quer ensinar ao outro como ser diferente. É um assunto que Preto Zezé abordou em entrevista no Roda Viva: a elite intelectual aceita o pobre como objeto de estudo, e não como criador de cultura e saber.

O tecnobrega do Pará e o funk melody do Rio acabaram virando cult quando abraçaram alguns movimentos sociais urbanos, principalmente as causas feminista e LGBT. Com uma polida ao estilo internacional, acabaram virando o novo POP brasileiro. Ainda que isso deixe muita gente assustada, a MPB e o novo POP-BR já estão juntos. Caetano cantou com Anitta e com Iza; Ney Matogrosso cantou com Gaby Amarantos e Urias; Belchior fez um feat póstumo com Emicida, Pabllo Vittar e Majur

Mas a música de apelo ultrapopular, melodramática, bucólica, embriagada, politicamente incorreta: essa música continua sendo ouvida por quem ainda não é ouvido. Essa música ainda segue sem redenção, e eu nem sei se ela quer ser redimida. Ainda que não apreciada, essa cultura não deveria ser ignorada, especialmente pela sua potência econômica e política. Contradições são divertidas de se estudar, mas em algum momento elas precisam ser superadas.


Edson Nova é cantor e jornalista. Toda terça-feira sai um novo artigo sobre o universo da cultura POP. Compartilhe agora, e siga no Instagram e no Twitter.






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