Aprenda a sua cor

Dia da Consciência Negra 2020 (Edson Nova)

Você consegue se lembrar de algum momento na sua infância em que tenha percebido qual era a cor da sua pele? Numa sociedade profundamente miscigenada, esse assunto pode parecer controverso. Aliás, a miscigenação é justamente o argumento para fazer tantas pessoas acharem que esse assunto é irrelevante. Mas eu quero te provocar. Pense comigo, reveja sua própria história, e pense se o tom da sua pele foi ou não foi algo a se pensar.

Nas últimas semanas, a filósofa Djamila Ribeiro esteve no centro do Roda Viva. Ela foi questionada pela apresentadora Vera Magalhães sobre colorismo (objeto de estudo da sociologia, são os diferentes comportamentos percebidos entre pessoas de uma mesma etnia mas com tons de pele diferentes) e pigmentocracia (efeitos políticos e econômicos do colorismo). Ela então deu uma das declarações mais fortes de todo o programa: “a experiência da negritude não é universal”. 

Pode parecer uma frase contraditória, porque pouco antes ela dizia sobre como o movimento negro, ao longo do tempo, ajudou tantas pessoas a se reconhecerem como negras. Talvez a primeira interpretação seja “Djamila quer dizer que os mestiços não são tão negros assim”. Mas a minha própria história me faz entender a fala dela de outra forma. E é isso que eu queria compartilhar com você nesse 20 de novembro.


Uma criança sem cor

Eu sempre gostei muito de história. Quando pequeno, eu achava que no passado o mundo era em preto e branco, como nas imagens antigas. Sempre gostei de me imaginar em realidades alternativas, e como teria sido viver momentos históricos (sem saber que eu viveria um nada agradável em 2020). Quando ainda estava no Ensino Fundamental 1, e comecei a estudar sobre a escravidão no Brasil, eu me perguntei se eu seria um escravo caso vivesse naquele tempo.

Parece bobo agora, mas não era tão absurdo eu ter dúvidas sobre a minha própria identidade racial no fim dos anos 1990. Sendo baiano, um estado com grande proporção de pessoas retintas, um garoto marrom tinha suas dúvidas. Famílias simples, não-brancas, do interior da Bahia, costumam ter suas ancestralidades apagadas. E não foi diferente com a minha. Meu avô materno, que tinha a pele retinta, também trazia um forte fenótipo indígena. E alguns desses traços são hoje marcantes no meu próprio rosto. Alguns colegas da escola me chamavam de japonês… É, eu sei. Mas com boa vontade, também dá pra entender o contexto deles. 

Meus pais, sem saber da minha viagem astral pelo século XIX, disseram com toda naturalidade: sim, nós seríamos escravos se vivêssemos naquela época.No contexto daquele Brasil, de 20 anos atrás, eu me senti diminuído por ouvir isso. Nessas duas décadas, os movimentos sociais ensinaram ao país a diferença entre os termos “escravo” e “escravizado”; ensinaram porque tantas famílias tiveram seus passados apagados; ensinaram toda grandeza de ter consciência sobre si. Todos esse ensinamento tem muito ou nenhum valor. Depende do ponto de vista.


A cor que não existe

Do ponto de vista da biologia, não existem diferentes raças, ou subespécies, entre humanos. Reino animal, filo dos vertebrados, classe dos mamíferos, ordem dos primatas, família dos hominídeos, gênero homo, espécie homo sapiens. De Nelson Mandela a Adolph Hitler, todo ser humano tem a mesma classificação biológica. E tudo que está escrito acima eu aprendi com 11 anos, quando o sexto ano ainda se chamava quinta série. Então qual a necessidade de falarmos sobre consciência negra?

Eu já escrevi nesse blog especialmente sobre discriminação positiva: você pode ler aqui. Mas vou um pouco mais além agora. Com base na natureza, e nas suas ideias internas, os grupos de homo sapiens criaram muitas culturas. Essas culturas foram se encontrando, casando, guerreando, até começarem a se formar grandes sociedades, complexas, que registravam o seu conhecimento. É aí que nasce o que normalmente chamamos de História. 

Sei que você já entendeu onde quero chegar: as etnias humanas não fazem diferença na natureza, mas fazem na cultura, na sociedade e na história. Isso significa que as diferenças são simbólicas, imaginárias, o que não as torna menos reais. A democracia e o capitalismo também são coisas imaginárias, e a etnia é uma variável que faz toda diferença no acesso a esses poderes políticos e econômicos.

Falar sobre raça não é criar diferenças. É apenas admitir as diferenças que já existem. O mulato, o sarará, o moreno, aquele que os estadunidenses chamam de light skin, pode até estar no meio do caminho em termos genéticos. Mas tudo que vem da cultura humana coloca essas pessoas mais perto da herança de escravização do que da herança de colonização. Por isso Djamila admite a importância do movimento negro convencer uma nação dentro de outra a se rever. E isso também não muda o fato de que pessoas de pele retinta, e/ou mais ligadas à tradição não-branca (remanescentes quilombolas, indígenas, religiosos animistas) vivem uma experiência diferente. 

Viver em São Paulo me colocou em contraste absoluto. Pele, gírias, temperos: tudo em mim é diferente. Isso foi muito importante para o meu processo de auto-descobrimento. Aliás, tem sido, porque esse processo não acabou. Ter consciência negra não me limita, apenas explica parte de mim. Talvez isso seja o mais assustador: o povo explicando a si mesmo. Aquele menino marrom, que brincava de imaginar realidades alternativas, agora gosta de brincar propondo alternativas para a realidade. E aprender-se é o primeiro passo para isso.


Edson Nova é cantor e jornalista. Toda terça-feira sai um novo artigo sobre o universo da cultura POP. Compartilhe agora, e siga no Instagram e no Twitter.





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