Estupro, pero no mucho


Enquanto eu pesquisava e escrevia esse post, cheguei a sentir ânsia. Imagino até o que eu sentiria se fosse uma mulher. Sim, porque por mais que eu exercite a minha empatia, eu jamais vou saber pelo que uma mulher passa ao longo de sua vida. Pior ainda! Parte da minha repulsa talvez seja por admitir que eu também tenho responsabilidade sobre o caso de estupro da influenciadora Mariana Ferrer. Embora não seja exatamente sobre ela que eu vá falar aqui.

Tenho certeza que você já conhece a história. Uma série de evidências mostra que o empresário André Camargo Aranha fez sexo com Mariana enquanto ela estava sob efeito de drogas. O processo corria no Tribunal de Justiça de Santa Catarina (TJ-SC). Até mesmo o Ministério Público de Santa Catarina (MP-SC) reconhece que Mariana não estava em condições de dizer nem que sim e nem que não. Mas, segundo o promotor Thiago Carriço de Oliveira, está tudo bem transar com alguém inconsciente.

O juiz Rudson Marcos concordou, e absolveu o réu. Isso sem mencionar a tortura psicológica promovida por Cláudio Gastão da Rocha Filho, advogado do acusado. Veja os detalhes nesse brilhante furo de reportagem do portal The Intercept Brasil. Mas como esse é um blog de tecnologia e cultura, é sob esse viés que vamos olhar o problema. Eu queria analisar com você o poder do audiovisual na formação sexual de toda uma geração. 

Não, não é sobre a indústria da pornografia que eu vou falar. Embora seja um ótimo tema, eu quero algo mais sutil. Também não é sobre filmes cult com cenas perturbadoras, como Marlon Brando e a manteiga em "O último tango em Paris". Eu quero algo mais efêmero. Eu vou falar sobre um gênero de filmes que precisa ser encarado com seriedade por pesquisadores: as comédias eróticas adolescentes dos anos 2000. Você deve ter pensado em "American Pie", e quase acertou! Mas vou ficar com um menos lembrado, e até menos erótico: "Curvas Perigosas". 


Till it happens to you

Lançado em 2002, eu lembro de ver o cartaz desse filme na frente de uma locadora, enquanto eu voltava a pé da escola. Assisti na Globo alguns anos depois. Ainda não sabíamos, mas o pano de fundo do roteiro viria a ser um tema discutido com muita seriedade: abusos sexuais em fraternidades de universidades dos Estados Unidos. O título original, Sorority Boys, já é extremamente sugestivo: na trama, os três protagonistas precisam se disfarçar de mulher.

O motivo não vem ao caso agora - é tão absurdo quanto o fato deles não serem reconhecidos pelos colegas. A cena que quero comentar simula algo bem mais real. Um dos protagonistas acaba bêbado e dentro do quarto de um velho amigo, que acredita estar com uma mulher desconhecida. O protagonista acaba desmaiando sobre a cama, e o amigo faz sexo com ele enquanto está inconsciente. Com dor na manhã seguinte, os outros dois protagonistas deduzem o que aconteceu com ele. Os amigos que transaram têm uma DR no fim do filme, e tudo é tratado como piada.

Como quase tudo dos anos 2000, esse filme deu uns passos pra frente, e outros pra trás, em se tratando de crítica social. O argumento central do roteiro era até um tipo de revanche: garotos machistas sentindo na pele o que é ser mulher. Mas essa simples cena, que trata com humor alguém fazendo sexo com uma pessoa inconsciente, é um problema gigantesco. 

Foi o tema dos abusos em universidades que colocou Lady Gaga na trilha do Oscar, conquistado ano passado. Em 2016, ela concorreu a melhor canção original com "Til it happen to you", do documentário The Hunting Ground. A obra aponta para aquilo que ainda não está sólido nas nossas cabeças: o estupro não se resume a pegar alguém de surpresa e usar violência pra obrigar a fazer sexo.


Todos por todas

Pelo menos é isso que garante a lei brasileira, alterada em 2009: o que antes era chamado apenas de "atentado violento ao pudor" agora também é estupro. Mas, aparentemente, essa informação ainda não chegou na justiça de Santa Catarina. Aliás, essa informação não vai chegar em lugar algum enquanto todos os homens não assumirem a sua responsabilidade. Incluindo a mim, incluindo a você.

Essa é mais uma verdade difícil de encarar. Não ter culpa por um problema não significa que não se tenha obrigações e responsabilidades sobre ele. Afinal, culpado ou não de alguma violência contra mulheres, todos nós homens desfrutamos os privilégios de uma sociedade machista. Até já fui assediado por rapazes, mas, além de ser muito raro, nunca senti que realmente corria risco de ser violentado. Talvez toda a geração 2000 esteja esperando apenas eu ficar inconsciente... 

Você já tentou pensar como seria sua vida em outra condição? Se eu fosse uma mulher, um homem trans, ou tivesse menos de 1,90m tudo seria diferente! Vamos ensinar isso aos nossos filhos. Vamos ensinar isso aos diretores de cinema e profissionais do direito. Quando se fala em igualdade de gênero, não é só pela beleza do discurso - para as mulheres é literalmente uma questão de vida ou morte.


Edson Nova é cantor e jornalista. Toda terça-feira sai um novo artigo sobre o universo da cultura POP. Compartilhe agora, e siga no Instagram e no Twitter.





Comentários

Postar um comentário

Mais Lidas