Maisa é o bug do milênio


Isso já estava profetizado, e quem foi fiel à palavra não foi pego de surpresa: depois de 13 anos, Maisa Silva anunciou sua saída do SBT. Em seu canal no YouTube, ela publicou um vídeo explicando seus motivos. Depois de entrar para a emissora aos 5 anos, ela personificou tantas tendências e mudanças que a sua biografia rende várias teses. E eu nem preciso profetizar porque isso já está acontecendo (só como exemplo eu deixo uma na área de direito e uma na área de comunicação). Essa decisão representa uma ferida no mercado midiático como conhecemos. É uma questão de geração, da administração do SBT, e do quanto você tem sede pelo grotesco.

A primeira ideia que pode passar pela cabeça é “ela deve estar indo para a Globo”. Até entendo esse pensamento porque sua antiga colega de SBT, Larissa Manoela, assinou com a emissora da família Marinho. Mas, segundo especulações da imprensa, Maisa não está trocando uma emissora de TV por outra. Aliás, se você pensa que essa seria a coisa mais natural a se fazer, é porque seu raciocínio ainda não está sincronizado com a cabeça da geração Z. 

Os anos 2000, época onde nasceu Maisa e sua fanbase, foi um período de muita histeria sobre a internet - achava-se até que conversar com pessoas desconhecidas era perigoso. E uma das ideias mais defendidas foi que a internet acabaria com a televisão. Em 2007 meu pai era assinante da Superinteressante, e eu li no papel uma matéria que me marcou muito: Lost e o fim da TV. Sem perceber, ainda na escola, eu já estava estudando Economia Política da Comunicação (linha teórica que eu sigo na academia).

Mas a história do teatro, do livro e do rádio ensinam uma coisa: as mídias não precisam ter um fim, é só achar novas formas de produção, distribuição e financiamento. Hoje, a televisão está nesse caminho para se redescobrir. E onde Maisa entra? Segundo especulações, ela iria fazer projetos maiores com o Netflix, além de outros projetos na internet. Essa decisão diz muito sobre como a TV pode estar destruindo a si mesma. Mas primeiro, vamos falar de onde essa destruição está mais acelerada: o SBT. 


Sistema Brasileiro de Terror

Embora polêmico, e às vezes questionável, o jornalista e colunista de celebridades Leo Dias tem insights brilhantes sobre o funcionamento do mercado midiático. Ele escreveu uma análise sobre o estado atual do SBT. O principal argumento é: a emissora estaria se descaracterizando, e a saída de Maísa é uma sinal disso. Não é necessário pensar muito para concordar. Depois de uma década investindo em jornalismo e dramaturgia própria, coisas que a emissora não costumava ter até antes dos anos 2010, esses dois complexos estão se desfazendo. O maior investimento hoje é algo com o qual o canal nunca havia trabalhado: futebol.

O SBT sempre teve uma personalidade forte, baseada no que o pesquisador da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Muniz Sodré chama de comunicação do grotesco. Despretensiosas e de gosto duvidoso, as produções do SBT sempre foram o que os canais de YouTube são hoje - entretenimento que não tenta ficar parecendo uma obra de arte. Não cabe aqui dizer se isso é bom ou ruim, mas o fato é que isso funciona. Mas TV de Silvio Santos parece estar fazendo um estranho jogo de interesses com o atual governo, e deixando de lado sua tradição de representar o lado cafona e inofensivo da família brasileira. 


Marco zero de uma geração

A banda Móveis Coloniais de Acaju (eu ainda amo e tenho fé num retorno) tem uma música chamada Cheia de Manha, que satiriza a fábrica de celebridades mirins dentro do showbiz. Quem não lembra de Dani Boy, Molecada, Mini Lady Gaga? Difícil inclusive achar algum com fama e/ou saúde emocional depois de adulto. A fábrica fechou, até porque mudaram as leis sobre propaganda para crianças e a sexualização infantil. Maisa foi a última representante dessa fábrica na TV brasileira. Quando ela ria de Silvio Santos no programa dele, estava anunciando que a sua geração iria crescer sem dar a mínima para o passado glorioso da televisão aberta. 

Ela foi um dos primeiros memes da geração Y, que era adolescente nos anos 2000, por ser odiada. Hoje vemos que esse ódio era só o medo de aceitar a geração Z, nascida para abalar os alicerces do mercado midiático. A novela Carrossel, de 2012, fez muito sucesso porque era a primeira novela infantil que a geração Z via na TV aberta. Mas depois dali, o elenco e seu público cresceram juntos num ecossistema virtual. No intervalo entre 2013 e 2019, Maisa atuou apenas como atriz. O papel de apresentadora, no molde da TV clássica, não cabia mais. Seu talk show “Programa da Maisa”, estreado em 2019, foi bem sucedido. Mas sua linha editorial (desconstruída, engajada, feminista) já nasceu deslocada num SBT cada vez mais conservador.

Enfim, veio a notícia de que o contrato não seria renovado. Não existe nenhum anúncio oficial do que ela vai fazer agora, exatamente ao estilo da geração Z. Mas fica a certeza de que, criada numa TV aberta kitsch, Maisa hackeou o sistema para se tornar um ícone teen cool e engajado com as pautas das novas gerações. Isso certamente não dependeu só dela estar no lugar certo na hora certa - ela precisou tomar decisões, sendo tão nova e estando tão exposta. Em termos de geração, sua saída do SBT é um marco do fim. Não da TV como todo, mas de uma era. Esse meio ainda tem muito poder, e pode continuar existindo, mas só depois de uma longa reinvenção. Para Maisa eu só desejo vida longa, e o protagonismo de outros momentos históricos.


Edson Nova é cantor e jornalista. Toda terça-feira sai um novo artigo sobre o universo da cultura POP. Compartilhe agora, e siga no Instagram e no Twitter.

Comentários

  1. Ótimo texto, acho que é isso a TV precisa se reinventar para não ser engolida pela internet.

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    1. Obrigado por ler e comentar. Eu acredito que essa reinvenção é o momento de lutarmos para que a TV seja também mais plural e democrática! Espero que goste dos outros artigos nesse blog.

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  2. Eu gostei do texto, mas discordo que a geração Y tinha raiva da Maísa quando ela era criança, pelo contrário: o povo gostava dela. E eu vi a análise de uma pessoa (realmente eu não lembro o nome) que disse que o SBT está reformulando toda a grade porque está com grandes despesas, sendo que muitos programas já não dão audiência (como o Bom Dia e Cia) e que é bom respirar novos ares. Eu acho até que legal essas mudanças, vamos ver no que vai dar.

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    1. O ano é 2007. A geração Y tem cerca de 15 anos, e todos querem ver o Pânico na TV (infelizmente, era o programa mais popular entre adolescentes). Mas, bem nesse horário, as mães e avós querem ver um idoso e uma criança falando coisas non sense. No Orkut, que ainda não tinha sido invadido por pais e mães, as comunidades desfilavam ódio não só a Maísa, mas a quase todos os programas TV aberta.
      ...
      Quanto a reformular a grade: o SBT sempre fez isso. Quando criança, eu nunca sabia a que horas tava passando o Disney CRUJ porque todo mês mudavam a grade. A questão é: será que essas mudanças vão descaracterizar o canal? Espero que não, mas tenho minhas ressalvas.

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