Brasil, fofoca e piroca


Sim, eu vou falar sobre a separação de Gusttavo Lima e da vida pessoal de várias outras pessoas. Quem acompanha esse blog já imagina alguns assuntos que eu posso puxar dessas fofocas - tem sociedade, cultura e um pouquinho de política. Mas primeiro, eu queria levantar só uma pequena polêmica: esse não é um blog de fofoca, mas isso é mais por falta de habilidade minha do que falta de interesse. Todo mundo se interessa pela vida alheia, não tente negar. Isso tem motivo e não precisa ser algo ruim. Mas primeiro os fatos, depois os refrescos.

Começamos com ele: Gusttavo Lima se separou de sua esposa, a modelo Andressa Suita. Aparentemente, até ela foi pega de surpresa. Já se especula se houve traição, se pode haver reconciliação… Mas só um dado me interessa aqui: depois de anunciar o fim do casamento ele ganhou seguidores - foram mais de 250 mil no Instagram. Para mim, é muito clara a relação com o cantor Zé Neto (de quem eu nunca tinha ouvido falar antes dessa notícia histórica): depois de postar uma foto de sunga, exibindo o dito cujo, ele ganhou 900 mil seguidores.

Para deixar o raciocínio ainda mais interessante, podemos comparar com outra fofoca recente, envolvendo fim de relacionamento e um clipe super sensual. Você certamente já sabe tudo sobre Whindersson Nunes, Luisa Sonza e Vitão. Este último foi constrangido por pessoas na rua, ao ponto de Whindersson se pronunciar em sua defesa. Mas nada se compara à quantidade de ódio direcionado à mulher da história. O cantor Luan Santana e a cantora Giulia Be ajudaram a subir uma tag no Twitter: #luiisamerecerepeito. E agora finalmente vem a parte em que a gente descobre como esse show da vida privada revela os horrores da vida pública.


República da Fofoca

O antropólogo britânico Robin Dunbar pesquisa a evolução, o comportamento primata, e estuda também a fofoca. Para ser sincero, eu conheci essa referência assistindo à série The Big Bang Theory, por meio da personagem Amy (temporada 4, episódio 20). Só para começar a chocar, Dunbar calcula que dois terços das nossas conversas são sobre a vida alheia. Como somos seres sociais e individualistas ao mesmo tempo, a fofoca é uma forma de unir grupos, e de separar também. 

Somos movidos a narrativas, e elas costumam ser mais fáceis quando envolvem a vida de uma pessoa. Pessoa essa que nem precisa ser real. Ler e assistir ficção são formas de satisfazer o voyeurismo, o desejo de ver sem ser visto, que todos temos até certo ponto. Todo país, para nascer, depende de narrativas (nem sempre verdadeiras) e de expor a intimidade de algumas pessoas (nem sempre bons exemplos). É assim que construímos e destruímos formas de organização política - falando primeiro pelas costas, e depois tomando ruas, palanques e urnas. 

É aí que a gente começa a fazer algumas perguntas importantes: que tipo de vida íntima o brasileiro deseja ver exposta na hora de organizar sua política? Eu quero citar uma fala e infelizmente não achei o vídeo (se você souber onde está, deixe nos comentários). Foi da cientista política Lúcia Hippolito no Programa do Jô, provavelmente em 2014. Jô perguntou a ela se o modelo parlamentarista não seria melhor para o Brasil. Ela respondeu que o parlamentarismo é típico de democracias velhas, sólidas e estabelecidas. Democracias jovens se sentem mais atendidas pela figura do presidente porque ele se assemelha à figura do rei. É nesse ponto que descemos para as nossas partes baixas.


República da Piroca

No absolutismo monárquico, além de líder político, o rei é um líder econômico, militar e religioso. Ou seja, ele precisava ter riquezas, força física e expor uma vida íntima moralista. Percebe a ironia? Mesmo vivendo em repúblicas, americanos em geral escolhem seus presidentes por esses mesmos motivos. Por isso é raro ver pobres, mulheres, acadêmicos e minorias étnicas chegando ao poder máximo do executivo. Se quiser facilitar a conversa, podemos reduzir esses “gostos” da maioria em termos que as ciências sociais usam: machismo, classismo e racismo.

E nunca esqueça que o mercado de entretenimento está totalmente relacionado com a política e a economia de uma sociedade. A forma como a audiência reage às fofocas de um famoso ou famosa diz muito sobre a forma como essa audiência vota. Um homem deixa sua esposa e a fama aumenta, uma mulher deixa o esposo e vira alvo de haters. Um homem expõe seu órgão genital e ganha quase um milhão de seguidores - nem me atrevo a dizer o que fariam com uma mulher que exibisse as partes (revista masculina não conta).

Depois que um cantor morre, seus hits comerciais se tornam cult e logo surgem biografias e documentários. Já aceitamos que a intimidade do artista é parte da obra de arte, e do objeto de estudo da história e sociedade. Ou seja, não falar da vida alheia nem é uma opção. Mas em quais mitos você está se apegando na hora de julgar os fatos? Em quais narrativas originais você acredita? Quais os “pais fundadores” que você segue? Progressistas não estão imunes a isso. Para usar uma expressão gospel (como eu faço volta e meia), sonde o seu coração. Um país, e sua arte, se fazem com uma fofoca bem mais inteligente.


Edson Nova é cantor e jornalista. Toda terça-feira sai um novo artigo sobre o universo da cultura POP. Compartilhe agora, e siga no Instagram e no Twitter.

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