Play Music, o juízo final



Acredite: o Google acaba de fazer história na música. Desde o início do ano, a empresa anunciava o fim do aplicativo Google Play Music, nativo dos celulares Android. Em setembro, a loja para comprar e baixar faixas já havia sido encerrada em outros países. Já em outubro o serviço também foi encerrado no Brasil. Pode parecer uma simples decisão administrativa, mas ela revela muito sobre a indústria fonográfica. Esse fato interessa a pesquisadores, porque aponta para uma mudança profunda na cultura e na economia. Interessa a quem produz música, porque mexe com seu faturamento e suas métricas. E claro que interessa também a quem ouve música, por que seu artista favorito pode ficar mais difícil de ser encontrado.

A intenção do Google é que todos migrem para o seu novo app, o YouTube Music. Caso você tenha comprado músicas, feito upload de arquivos mp3 ou salvado playlists no Google Play Music, pode transferir tudo isso para o YouTube Music. Mas atenção: o prazo é até dezembro, porque depois tudo será excluído. Mas qual o motivo para o Google tomar essa decisão? Um pouco de história ajuda a entender. Começando nos anos 2000, quando as gigantes da tecnologia começaram a se tornar o centro do mercado de entretenimento.

Em 2001, o iTunes inaugurou um tipo de serviço até então inédito: venda avulsa, e legalizada, de músicas digitais para download. Ao lado do iPod, um mp3 player com cara chique, o iTunes fez da Apple a cabeça da revolução na indústria fonográfica nos Estados Unidos. Como a venda de CD’s também estava em crise nos outros países, essa revolução já era esperada e desejada ao redor do mundo. Depois de passar os anos 2000 aprendendo o que era distribuição digital, a indústria fonográfica só voltaria a dar lucro na década seguinte. 

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Em 2007 o iPhone inaugurou a era dos smartphones, e os mp3 players foram morrendo. Já em 2008 surgiu o Spotify, colocando o mercado de streaming (consumo sob demanda) lado a lado com o mercado de downloads. Se você está disposto a se aprofundar real sobre o tema, eu indicaria duas teses: uma na área de Comunicação, e outra na área de Economia. Em resumo, a questão é: os especialistas já previam que o mercado iria preferir o streaming, e o modelo de compra avulsa e download iria ser deixado de lado. E acredite quando eu digo que a gente precisa continuar prevendo esse futuro.


Quem ouve a música

Quem lê essas pesquisas muito rápido pode achar que se trata apenas de uma evolução “natural” das tecnologias. Mas não é tão simples. Flávio Marcílio Maia é professor de Comunicação na Universidade Federal de Alagoas (UFAL) e pesquisador de música digital. Em entrevista para esse blog, ele confirmou que o streaming já está estabelecido, “porém, quando falamos de Brasil, vivemos em estágios diferentes de consumo, produção e circulação musical”, afirma. Ao falar dos aplicativos de download de música, o professor aponta para uma realidade nem sempre vista: a falta de internet nas periferias.

Por causa disso, muitas pessoas preferem baixar músicas e filmes para ter conteúdo garantido quando a internet faltar. Como exemplo dessa realidade, o professor Flávio aponta o aplicativo de download Sua Música. Uma das maiores plataformas do Brasil, é especializada em gêneros considerados periféricos (forró, sertanejo, arrocha, brega funk, etc). “O interessante é que muitos artistas que estão no Sua Música também estão em outras plataformas, porém nessas o consumo é muito baixo”, explica.

Para quem tem acesso constante à internet, esse dilema “download versus streaming” depende só do gosto pessoal. “Quando colocamos o streaming numa balança, o lado do consumidor sempre é mais vantajoso. Seja ele assinante ou não de algum serviço, sempre há alguma forma gratuita de consumir a música que ele deseja”, opina o professor. Mas ele também lembra o outro lado dessas plataformas: “para os artistas e produtores, existe uma facilidade enorme de acesso e disseminação musical, porém o lado rentável é muito questionável”.


Quem faz a música

Jonas Paulo faz de tudo na música: maestro, produtor, cantor, compositor, e diretor da gravadora NZ Música. Em entrevista para esse blog, ele ajudou a ver o dilema “download versus streaming” de um ponto de vista bem musical. Sobre o faturamento dos artistas e gravadoras, a primeira fala não soa tão animadora: “Quem ganha muito dinheiro, em qualquer modelo de negócio, é um pequeno grupo. E sempre foi assim. Na época do [disco] físico sempre tinha músico incrível que não conseguia viver, e muito menos enriquecer, de vender disco”.

Mas o maestro aponta outras vantagens que as plataformas de streaming podem trazer aos artistas: “A gente demorou para entender como funciona e, a bem da verdade, ainda está no processo de se acostumar com o funcionamento do streaming. Mas ele é a melhor realidade para o mundo atual e suas regras. Ele mede alcance, engajamento, e quem é ouvido cresce. Vence quem consegue gerar conexão entre seu som e o público”.

Uma crítica comum entre aqueles que não gostam do streaming é dizer que os dados dessas plataformas influenciam o conteúdo das músicas (duração, escolha do ritmo, tema da letra). Quanto a isso, o maestro Jonas Paulo é direto: “para música de massa, eu uso isso tecnicamente. Quem quer um sucesso POP deve favorecer que sua arte se comunique nos códigos vigentes. Não existe receita de bolo, mas seguir tendências é bom sim”. Porém, ele lembra que é depois desse ponto que os artistas bons conseguem romper com o que se espera. “Primeiro aprenda a fazer o certo! E busque o genial depois. Beyoncé fez o ‘Lemonade’ antes ou depois de ‘Say my name’? ”, provoca o maestro Jonas.

"Pra que (o Google manter) duas plataformas se a outra já é uma das mais populares do planeta?", questiona o Maestro Jonas Paulo.


Comparando os contratos que as gravadoras faziam no passado com os que fazem hoje, muitos pesquisadores consideram que até os grandes artistas já podem ser tidos como independentes. E isso tem tudo a ver com as novas formas de ouvir música. O faturamento dos artistas hoje vai muito além da diferença de ganhos entre download e streaming. Ele passa por direitos autorais, publicidade, e parcerias com selos, agências e coletivos para produzir conteúdo. “Independente nunca vai significar sozinho, e sempre vai ter alguém que te ajuda a crescer o bolo”, explica o maestro.


Cifrões no comando

O professor Flávio Marcílio Maia lembra que o YouTube já vinha sendo usado pelo público como um streaming de música. Já que não era bem essa a finalidade da plataforma, esse hábito gerou problemas com a arrecadação de direitos autorais. “A ideia de criar uma extensão musical dentro do YouTube está mais para uma rentabilidade da empresa, o que facilita o pagamento de royalties para os artistas, e provavelmente ultrapassa os downloads pagos feitos pela outra plataforma”, afirma Maia.

Mesmo com toda a parte técnica, escolher usar um aplicativo ou outro é uma decisão que depende também da cultura dos usuários. E, por isso mesmo, até as gigantes da tecnologia fazem suas apostas de risco. “Como em todas as áreas, a gente nunca sabe o que vai emplacar. Talvez alguém pensasse que pelo fato do Google Play Music fazer parte do grupo Google ele emplacaria”, pondera o maestro Jonas Paulo.

Mesmo com grande parte da população sem acesso à internet, e com os artistas ganhando novos desafios para criar conteúdo e faturar o suficiente para viver de sua arte, a indústria fonográfica parece mesmo caminhar para o streaming como principal modelo. O download ainda é uma opção, mas pouco atraente ao público jovem que não quer ficar com a memória lotada de arquivos. Por exemplo, o iTunes ainda existe, mas os usuários de iPhone já colocaram o Apple Music como o segundo maior streaming de música do mundo, atrás apenas do Spotify. Inclusive, será que os usuários do Android, que já estão habituados com o Spotify, terão motivos para migrar pro YouTube Music? Adivinhar o futuro é algo que pesquisadores e artistas fazem todo o dia. Claro, com técnicas diferentes. Independente do tipo de aplicativo, o futuro desejado é com mais acesso à cultura e melhor distribuição da riqueza que ela produz.


Edson Nova é cantor e jornalista. Toda terça-feira sai um novo artigo sobre o universo da cultura POP. Compartilhe agora, e siga no Instagram e no Twitter.

Comentários

  1. Eu particulamente sinto um desconforto e algum tipo de dificuldade em ter de migrar do google play music para o youtube music. Mas nem sempre tenho internet quando fora de casa então migrarei mesmo assim.

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