Todos contra a Apple



Dentre tudo que já aconteceu para tornar 2020 um dos piores anos da história recente, só faltava mesmo isso: fontes do mercado estimam que o novo celular da Apple, o iPhone 12, pode chegar ao Brasil custando até 14 mil reais! Mas esse não é o único problema a abalar a fé dos fãs: a maçã está em guerra na justiça dos Estados Unidos contra outra gigante da tecnologia. Talvez você tenha pensado no Spotify, e não deixa de estar certo! Eu já escrevi especialmente sobre essa guerra [leia aqui]. Mas dessa vez a disputa é com a Epic Games, por causa de uma bela fatia do valor arrecadado pelo seu jogo mais popular: o Fortnite. 

Vamos resumir o cenário. O fã brasileiro da Apple ainda não tem previsão para saber o preço oficial do iPhone 12, e nem quando ele estará disponível para compra. Mas o que já se sabe é que a caixa agora vem sem fone e sem carregador - a desculpa da empresa é diminuir o impacto ambiental, e já existe até recomendação para carregar com cabos antigos. E no caso desse Apple fan gostar também do Fortnite, ele não vai poder jogar pelo celular. O jogo está bloqueado na AppStore desde agosto de 2020, mesmo período em que as gigantes começaram a brigar na justiça.

A treta não é tão simples, mas é super necessária de se entender porque, como tudo que eu escrevo aqui, vai além do fato e impacta a sociedade como um todo. Vamos na ordem. A Apple coloca regras para os aplicativos que vão ser vendidos pela App Store, inclusive abocanhando 30% de toda movimentação financeira dentro dos aplicativos. A justificativa dela é que os desenvolvedores estão pagando pela segurança digital de sua loja, e pela sua ampla base de usuários. 

Porém, nem sempre as regras para os desenvolvedores estão claras.  E mais: as regras costumam mudar para uns, e não para outros, de acordo com o humor da maçã. A justiça dos Estados Unidos percebeu isso, e já tinha colocado a Apple na berlinda desde o ano passado. Foi essa a deixa para Spotify e Epic Games abrirem fogo contra a fabricante do iPhone, alegando que ela pratica concorrência desleal e cobranças abusivas. O resultado pode mudar todo o mundo digital como conhecemos.


O fruto proibido

Desde o ano passado, o congresso dos Estados Unidos está discutindo o óbvio: se as gigantes de tecnologia não estariam grandes demais, e usando o seu poder para praticar monopólio de mercado. No centro do debate estão Apple, Google, Facebook e Amazon - somadas, elas representam um valor de 5 trilhões de dólares. Nenhuma legislação no mundo estava preparada para lidar com o mercado digital, especialmente com empresas que são maiores que o Produto Interno Bruto (PIB) de alguns países. Por isso, as decisões dos congressistas estadunidenses podem influenciar as leis internacionais.

É nesse cenário que os concorrentes decidiram se rebelar contra as regras volúveis da AppStore. A Epic Games começou oferecendo desconto para quem comprasse os acessórios do jogo fora do aplicativo - uma forma de burlar a taxa de 30% da loja de apps. Depois disso, o Fortnite foi bloqueado para aparelhos da Apple. Porém, estamos falando do game mais jogado do mundo desde 2017, então esse bloqueio não passaria despercebido pelos usuários de iPhone, iPad e Mac. Depois da troca de farpas, a decisão pode até mesmo ir a júri popular. A previsão para o julgamento é só em maio de 2021.

Decidir sobre quem está certo não é nada fácil. Ao comprar um celular, você obrigatoriamente está levando dois produtos: o aparelho (hardware) e o sistema operacional (software). Aliás, você também leva junto um pacote de serviços (conta virtual, armazenamento em nuvem, loja de aplicativos, etc). Quem compra um iPhone tem o direito de comprar aplicativos e acessórios por outra loja que não seja a AppStore? Talvez uma loja que não cobre tanto dos desenvolvedores, e permita preços menores? Esse é o principal argumento da Epic Games, mas não há agora nem sinal desse fruto proibido.


Novos mapas digitais

Percebe que, quando a justiça discute o monopólio, ela está discutindo menos os produtos e mais os serviços? Acredite, isso é muito importante para a influência e longevidade de uma empresa. Tanto é que, na minha modesta opinião, os serviços foram o principal motivo para o fracasso do Windows Phone. Eu devo ter sido a última pessoa do mundo a usar o sistema operacional da Microsoft - até 2017. Os aparelhos, com qualidade Nokia, eram inquebráveis. O sistema era seguro e muito eficiente. Mas os serviços agregados eram muito ruins - o Outlook nem chega aos pés do Google Drive.

Esse impasse sobre monopólios de softwares e serviços precisa ser resolvido pelo legislativo e pelo judiciário antes da disseminação do sistema 5G. Em resumo, essa nova tecnologia de internet permite transmitir mais dados em menos tempo, além de criar uma maior quantidade de sinais de rede. Ou seja, vai ser a porta para a tão falada internet das coisas. Isso significa que o monopólio de Apple, Google, Facebook e Amazon não vai estar apenas no seu smartphone e computador, mas também no seu carro, na sua geladeira, e em tudo mais que seja eletrônico e possa se conectar à internet. 

Esse monopólio não está acontecendo apenas na vida privada das pessoas. Os governos também são cada vez mais dependentes dessas gigantes da tecnologia para fornecer serviços públicos básicos. No fim das contas, talvez Apple e Epic Games estejam igualmente erradas. Talvez não se trate apenas de um videogame, e sim do conflito entre o interesse das grandes empresas e a democratização da tecnologia. Não acho que seja tão difícil escolher o único lado que pode beneficiar todos nós.


Edson Nova é cantor e jornalista. Toda terça-feira sai um novo artigo sobre o universo da cultura POP. Compartilhe agora, e siga no Instagram e no Twitter.





Comentários

Mais Lidas