O futebol e os bundões


Finalmente vou falar dos dois assuntos que movem o país! Pra começar: nunca entendi porque “bundão” é uma ofensa, especialmente no Brasil que tem uma cultura altamente “bundalizada”. Mas como eu não criei as regras, apenas aplico, vou usar a expressão. Especialmente porque eu adoro duplos sentidos. Continuando. Duas notícias tomaram o último fim de semana: a peladona do Leblon e o Flamengo tentando colocar atestado para não trabalhar. Sim, esses dois fatos estão interligados, e dizem mais do que você imagina sobre o momento do país.

Antes de tudo, eu preciso deixar bem clara a minha posição: eu não gosto nem um pouco de futebol. Não jogo, não torço, não assisto, não tenho paciência para ouvir discussão de torcedor. Desde o Coliseu da Roma Antiga, o esporte profissional me parece um grande purgatório da agressividade que os homens não tinham mais a quem dirigir - uma vez que a natureza estava dominada, restava brigar entre si.

Respeito a história e a paixão pelos esportes modernos, mas acho que já passou da hora de educadores, comunicadores, dirigentes e atletas promoverem reflexões. O tal do “espírito esportivo”, de disciplina e respeito ao outro, parece existir só dentro de campos e quadras. Nas arquibancadas, e nos gabinetes dos dirigentes, o espírito é outro.

Feitas as minhas apresentações, espero que não se irrite - você pode até começar a praticar o seu espírito esportivo comigo. Mas, se torcer para outro time, pratique também com o Flamengo. Segundo todas as colunas de esporte que eu li, o time carioca está comprando briga com a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e com todos os outros clubes. Existe até proposta de banimento do time carioca do Campeonato Brasileiro. Até para eu que estou de fora, a posição do clube parece irônica: pressionam pela volta do campeonato, pressionam pela volta do público aos estádios, e depois querem adiar o jogo contra o Palmeiras porque os jogadores pegaram Covid-19. 

Rodolfo Landim, presidente do Flamengo, não se declarou bolsonarista, mas deu passos em direção aos interesses pessoais do presidente. O primeiro foi pressionar pela volta dos campeonatos com público. Para o governo, importa o simples efeito de simular que não existe pandemia. O segundo passo foi a Medida Provisória 984, que dá aos times mandantes o poder de negociar os direitos de transmissão dos jogos, defendido no manifesto “Futebol mais livre”. Essa é uma forma do Governo Federal atingir uma fonte de renda das grandes emissoras de televisão, especialmente aquelas que fazem oposição. Aliás, esse assunto merece um pequeno desvio para ser melhor comentado.


Vida após a morte

A televisão que cresci assistindo nos anos 1990 e 2000 não existe mais. Isso é um fato. Mas não significa que ela não vá continuar em outros formatos - ao contrários de profecias dos anos 2000, como esta da Superinteressante publicada há 13 anos. Caso nunca tenham te contado, canais de televisão são bem públicos, concedidos a empresas privadas para que elas ganhem dinheiro enquanto prestam serviços à sociedade. O modelo de negócio é simples: oferecer conteúdo de graça para formar uma audiência, e depois vender essa audiência ao mercado publicitário. Sim, você é o produto da TV aberta.

Com o streaming, que passou a dominar o mercado de entretenimento audiovisual (dramaturgia, documentários, reality shows), a TV precisou se concentrar em outros produtos que a internet não pode fazer tão bem: aqueles baseados em transmissão ao vivo. Mesmo a melhor das internets tem dificuldade para brigar com o sinal de TV via satélite. Ou seja, o jornalismo e as transmissões esportivas são o que a televisão aberta tem de mais valioso hoje. Isso foi dito recentemente por ele que foi diretor da Globo ao longo de 30 anos,  Boni, em entrevista no Roda Viva. Ou seja, para um presidente que briga contra a Globo, faz muito sentido tentar mudar as regras do mercado midiático esportivo.


Um país com a bunda de fora

A peladona do Leblon foi uma cena bizarra, mas até inofensiva em se tratando de 2020. Com tantas crises, na saúde e na economia, um par de bundas num carro conversível é o menor dos problemas. Mas não na opinião da arquiteta Aline Cristina. Além de ofender as mulheres do carro, ainda jogou uma garrafa de água contra elas. A moça desceu do carro, e deu um tabefe na cara da arquiteta. Segundo Xuxa, poderiam ter sido dois. Logo todos começaram a procurar pelos perfis das envolvidas, viram seus posts, e adivinha em quem a arquiteta votou?

Protagonizando cenas constantes de desrespeito ao distanciamento social, o Leblon virou um símbolo das ironias e hipocrisias da elite brasileira. E com mais esse episódio, passou a simbolizar também a intolerância, a violência, a imposição sobre o outro sem nenhum motivo lógico além de um capricho. Pode parecer um fato pequeno, mas é com a soma de casos assim que o país caminha para algo grande. 

Trata-se do amor ao poder, como um fim em si mesmo. É exatamente disso que outros clubes estão acusando a direção do Flamengo. E é disso que o atual governo se trata. Li os comentários dos artigos que eu pesquisei para escrever o meu. Quem defendia as decisões do Flamengo usava apenas um argumento: o poder econômico e midiático do clube. 

Calma, eu não vou entrar em contradição: eu sempre defendo a importância econômica da cultura, e eu sei que futebol é cultura nacional. Mas o “espírito esportivo” precisa sempre lembrar que ele reencarna em jogos de política e muito dinheiro. Democracia não é sinônimo de “ditadura da maioria”, e muito menos se sustenta com a lógica do “manda quem pode”. O buraco é mais embaixo, e é justamente o urubu de baixo que costuma cagar o de cima.  Lembre de colocar informação na cabeça, e máscara no rosto. Já na bunda, a cobertura é opcional.


Edson Nova é cantor e jornalista. Toda terça-feira sai um novo artigo sobre o universo da cultura POP. Compartilhe agora, e siga no Instagram e no Twitter.

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