Anitta é o novo Tom Jobim?



Ela voltou com mais um lançamento internacional. Na canção “Me gusta”, Anitta canta em Inglês e Espanhol na companhia da rapper estadunidense Cardi B, e do rapper porto-riquenho Myke Towers. O clipe se passa em Salvador (embora a música não tenha muito a ver com a locação), e já atingiu números comparáveis ao clipe de “911”, canção de Lady Gaga, lançado na mesma semana. É com esse novo chamariz que eu lanço nos ares a pergunta do título.

Para alguns, essa pergunta pode até parecer ofensiva, mas estou levando muito a sério. O simples fato de alguém se ofender com isso já seria um belo objeto de estudo! Mas eu não pesquiso a arte pelo lado da estética, e sim pelo lado social. O verdadeiro objeto aqui é a visibilidade, as trocas, a relação entre a cultura brasileira e a cultura dominante que nós aprendemos a chamar de global. 

Dessa vez eu vou começar pela lição de moral que geralmente vem no fim: música não é apenas música. Trata-se de um mercado gigantesco, que movimenta milhões (e matéria prima não nos falta no Brasil). Então, quando o país não investe em cultura, está deixando de ganhar dinheiro. Responda rápido: qual o país mais rico do mundo? Responda ainda mais rápido: de qual país vêm a maior parte dos filmes e séries que você assiste? Coincidência? Celso Furtado prova que não. 

Paraibano, formado em Direito pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), ele foi ministro da cultura de dois presidentes - João Goulart e José Sarney. No segundo mandato, ele foi responsável por criar a lei Sarney, a primeira lei de incentivo à cultura no Brasil. 

Além de político, ele era acadêmico e grande estudioso da relação entre cultura e desenvolvimento econômico. Recomendo fortemente o seu livro chamado “Cultura e desenvolvimento em época de crise”. Tá sem tempo? Dá pra começar com esse perfil que o Correio Braziliense fez de Furtado. Depois disso, ficou clara a importância da pergunta do título? Então podemos voltar ao começo da história.


Uma (super breve) história da música

A música popular que conhecemos hoje passou realmente a existir no século XX, depois de inventados os gravadores e o rádio. A partir daí, surgiu a figura do intérprete como um tipo de marca que vende a canção gravada (formalmente chamada de fonograma). Admita, na música popular nós conhecemos mais os intérpretes do que os compositores.

No começo, ninguém tinha muita certeza do que gravar: música erudita, ou ritmos populares que a elite abominava? A tecnologia de gravação nem era boa o bastante pra pegar os detalhes de uma orquestra, então o jeito era gravar ritmos populares, e torcer para a classe média comprar (já que ela era menos letrada que a elite). Ou seja, o mercado de música gravada já nasceu taxado como algo de mau-gosto, feito para uma pequena burguesia deslumbrada com a tecnologia, buscando nela uma forma de parecer refinada.

Hoje em dia, alguém ousaria dizer que o jazz é um gênero musical pobre e vulgar? Mas nos anos 1930 era o que se dizia. Duvida? Leia sobre Adorno: um músico e filósofo alemão, que fugiu do nazismo e se exilou nos Estados Unidos, no auge do jazz. Ele criou o termo “Indústria Cultural”, e era um crítico quase obsessivo de qualquer forma de comércio da cultura. Como já disse, não é bem isso que costumo estudar, então não vou afirmar se as ideias de Adorno são boas ou ruins. O importante aqui é: bom e mau gosto dependem totalmente do momento histórico que se vive.

Ao longo do século XX, os gêneros populares foram sendo gravados, misturados, reinventados (por exemplo. o jazz pareceu mais legal quando Sinatra e outros cantores brancos assumiram a cena). Com o tempo, surgiu a fórmula do que hoje conhecemos como música POP. Querendo ou não, de bom ou mau gosto, é difícil ganhar dinheiro gravando músicas que fujam muito do esperado (3 a 5 min, capa, clipe, estrofe, refrão...).


Brazil for sale

E a música brasileira? A tecnologia de gravação era quase exclusiva da então capital Rio de Janeiro nos anos 1920 e 1930 - até hoje as maiores gravadoras do país ficam no Rio. Então a história da música popular brasileira, no século XX, normalmente é contada pela visão carioca: começa no choro, depois samba-choro, seguido pelo samba-canção, até chegar na Bossa Nova no final dos anos 1950.

Uma leitura obrigatória para entender esse movimento é o livro Chega de Saudade, do jornalista Ruy Castro. Mas eu tenho certeza que não vai ofender ninguém dizer o óbvio: a Bossa Nova não foi apenas um movimento cultural, mas também um grande projeto comercial. No caso, um projeto da Odeon. A gravadora alemã via seu mercado crescer no Brasil, e precisava de um produto voltado especialmente para os jovens de classe média, diferente da fossa que marcava o samba-canção. Veja o que diz André Midani, um dos cabeças do marketing na Odeon.

Sem querer ser simplório (mas já sendo), pode-se entender a Bossa Nova como um encontro do ritmo cheio de quebras do samba com melodias e harmonias sofisticadas do jazz. Lembra que o jazz era então o gênero “POP” no mundo? Quando João Gilberto e Tom Jobim tocavam mundo afora, a música soava diferente e familiar ao mesmo tempo. 

Ligue os pontos: estratégia de marketing de uma grande gravadora; um movimento musical que mistura ritmo brasileiro com melodias e arranjos do POP internacional. É só trocar o samba dos anos 1950 pelo funk melody dos anos 2010, e a história fica muito parecida com a da Bossa Nova. Antes de Anitta, pelo menos nos últimos 30 anos, quantos artistas brasileiros gravaram, em pé de igualdade, com os líderes do mercado global? Não se assuste, não se ofenda, e continue lendo esse blog para outros assuntos polêmicos. Eu não vou dar uma resposta categórica para a pergunta do título - isso cabe à História, e não se esqueça de que ela também é feita por você.


Edson Nova é cantor e jornalista. Toda terça-feira sai um novo artigo sobre o universo da cultura POP. Compartilhe agora, e siga no Instagram e no Twitter.

Comentários

  1. Vim do seu comentário no YouTube

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Muito obrigado por ler e comentar. Espero que goste do conteúdo por aqui :)

      Excluir
  2. Cara, você disse tudo!!!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigado! E eu quero ouvir tudo também: pode opinar sobre qualquer coisa rsrs.

      Excluir
  3. Não sei se entendi direito, mas gostei. :)

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. 😅 Tudo bem! Pode sempre perguntar e opinar aqui...

      Excluir

Postar um comentário

Mais Lidas