A Fazenda, talvez um reality



Acaba de começar a 12ª edição do reality show A Fazenda, pela Record TV. Não, eu não assisto esse programa. Sim, eu vou falar sobre ele mesmo assim. O motivo? Na verdade são muitos, e tenho certeza que você vai me entender gostando ou não desse programa. Mas tudo começou quando eu vi a menção de dois nomes em especial na lista de participantes: os cantores Biel e Jojo Todynho. 

Antes de começar, um aviso: se você já leu aqui artigos sobre temas densos e acadêmicos, e está levemente chocado com o tema desta semana, vai com calma. Primeiro que posso parecer sofisticado, mas minha formação cultural vai desde o Sem Censura (apresentado por Leda Nagle na extinta TVE, hoje TV Brasil) até a banheira do Gugu. Segundo que vai ter sim um pouquinho de teoria social até para falar sobre A Fazenda.

Voltando aos cantores, eu achei muito curioso ver esses dois nomes ao mesmo tempo, porque para mim eles representam mundos opostos. Eu considero que, em 2016, Biel protagonizou o primeiro grande cancelamento da internet brasileira - graças a ter assediado uma jornalista, e ter sido exposto como racista em postagens antigas no Twitter. Já Jojo Todynho aconteceu quando sua música “Que tiro foi esse” virou meme entre 2017 e 2018, vindo no bonde do empoderamento da mulher não-branca e periférica (junto com Anitta e Ludmilla, por exemplo). Vou pedir licença, porque agora vamos falar da nova Tekpix. Depois voltamos ao reality.


Um merchan do Biel

Não se trata de gostar de funk, e sim de entender que esse gênero é uma manifestação poderosa da juventude periférica de Rio e São Paulo, que emergiu simbolicamente nos anos 2010. Especialmente em contraste com o passado. Ao longo da história, as grandes gravadoras costumavam pegar gêneros que estavam fazendo sucesso, e coloca-los na voz de homens brancos, cisgênero e heterossexuais. Não foi diferente nos anos 2010, quando o funk melody e o tecnobrega começavam a ditar o que seria o novo POP-BR.

Em 2012 eu fazia faculdade de Comunicação Social, e fui participar de um congresso em Fortaleza, Ceará. Na mesa de estudos sobre música, pelo menos metade dos artigos era sobre o tecnobrega, com destaque para a Banda Uó (acabara de sair o icônico clipe da música “Faz Uó”) e Gaby Amarantos (nesse ano, ela cantava o tema de abertura da novela “Cheias de Charme”, na Globo). Mas esses gêneros não cresceram apenas por terem virado uma ironia cult. A democratização da banda larga e dos smartphones foram importantes para que os anos 2010 trouxessem um novo tipo de movimento social para minorias que estavam silenciadas há décadas. 

Mulheres, pretos, pobres, viados, sapatões, nordestinos, nortistas, periféricos: essas pessoas usaram o funk e o tecnobrega para se representar e entrar na música popular brasileira, ainda que pulando a janela. E Jojo Todynho está sim nessa lista. O cancelamento de Biel, em 2016, representa um golpe de misericórdia nos ícones pop que não têm nenhuma relação com o mundo real. Inclusive, 2016 foi quando Beyoncé revelou ao mundo que era negra (escrevi sobre isso aqui). Coincidência?

Nada contra o Biel, nem a favor, mas vamos combinar que a assessoria de comunicação dele foi a pior que a gravadora Warner já fez no Brasil. Primeiro por não terem analisado as postagens antigas nas redes sociais dele. Segundo pelo mico de tentar compará-lo ao Justin Bieber - ele não tem a qualidade técnica do astro canadense, e a semelhança física é a mesma de qualquer outro menino branco. E terceiro por não terem treinado ele para entrevistas, ensinando que assédio é crime.


A nova urna eletrônica

Voltando à Fazenda, fica a reflexão: no caso de haver um choque entre esse dois mundos, pré e pós 2016, quem vai ganhar? Tivemos um embate parecido este ano no BBB 20. A trama do reality da Globo girou em torno do combate à misoginia e, mesmo entre concorrentes famosos, a vencedora foi uma mulher negra até então desconhecida - a médica Thelma Assis. Mais do que isso, alguns paredões viraram uma verdadeira disputa moral entre conservadores e progressistas (Eduardo Bolsonaro declarou apoio a Felipe Prior e, curiosamente, em seguida o ex BBB foi acusado de estupro).

Numa geração desacreditada da política, e com pouca educação para a prática política, as votações em reality shows e o cancelamento de pessoas famosas na internet virou uma forma de expressar o desejo por mudanças. Colocando em termos acadêmicos, virou uma nova esfera pública, onde caricaturas de pessoas reais fazem das lutas de classe um espetáculo. Não me cabe aqui dizer se isso é  bom ou ruim. O fato é que isso é um fato. E é sim importante quando estudamos o efeito da representatividade midiática no comportamento social. 

Mas por que eu estou perguntando sobre o resultado de uma possível disputa simbólica em A Fazenda? Porque sabemos que a edição tem muito poder, e a Record tem se mostrado uma emissora pouco aberta à diversidade e às pautas progressistas. Não que a Globo e seu público estejam muito diferentes: em 2010, Marcelo Dourado ganhou o BBB depois de passar todo o confinamento fazendo declarações homofóbicas. Nesses dez anos entre ele e Thelma, quem mudou mais foi a Globo ou a audiência do BBB? Para efeitos de estudo, comparar com A Fazenda 12 vai ser interessante. Mas nunca ache que o entretenimento basta para mudar uma sociedade. Parafraseando Angela Davis, muitas outras mulheres negras precisam se movimentar, além da Thelma e da Jojo Todynho, para que o reality se torne real.


Edson Nova é cantor e jornalista. Toda terça-feira sai um novo artigo sobre o universo da cultura POP. Compartilhe agora, e siga no Instagram e no Twitter.

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