O direito de (não) nascer

Conceito Nova - O direito de (não) nascer (Edson Nova)


Eu comecei esse blog para escrever sobre cultura e um pouco de teoria social - afinal são os temas que eu mais domino. Não era a minha intenção falar sobre temas tão delicados. Mas às vezes os fatos se impõem, e machucam. Todos ficaram sabendo da polêmica envolvendo uma menina de 10 anos, que buscava interromper a gravidez fruto de vários estupros sofridos. E, infelizmente, todos também viram o espetáculo grotesco promovido por Sara Winter. Como esse é um blog de cultura, é por esse lado que vamos abordar os fatos. Só não posso prometer que não vai doer.

O ser humano é movido a dramas, a narrativas: isso ninguém pode negar. Mas nós, latinos, temos um talento todo especial para dramatizar. Sejam americanos, sejam europeus, os latinos são sempre retratados como o povo do exagero e das contradições. O circo de horrores montado por Winter me remete a uma série de estereótipos da cultura latina, e me faz pensar até onde podemos estar confundindo utopias, ficções e realidades.

Começo a história pelo fim. Quando a ativista (na falta de adjetivo melhor, já que aparentemente ela não faz nada) Sara Winter divulgou os dados da criança, e o local onde estava internada, o que se formou na frente do hospital foi um verdadeiro exército de Brancaleone, em versão gospel. Um líder desequilibrado, lutando por direitos que não tem, levando consigo um grupo de idiotas funcionais desvalidos - vai dizer que não parece? Até conseguiríamos rir deles, se a dor de uma criança não estivesse envolvida. Mas o início da nossa história como desvalidos é mais complicado, e de péssimo gosto.


Bendito fruto do vosso ventre

Você lembra de O direito de nascer? O primeiro fenômeno da cultura POP latino-americana. A radionovela cubana escrita por Felix Caignet nos anos 1940 ganhou versões em todo o continente, indo depois para a televisão. Só no Brasil, ela teve duas versões na TV Tupi e uma no SBT. A trama é uma espécie de Édipo Rei ao contrário, com toque messiânico. Ela gira em torno de uma grande ironia: um jovem médico, filho bastardo de uma mãe solteira abandonada, salva sem saber a vida do avô que não queria o seu nascimento.

Pode parecer só mais um drama, mas é na verdade uma oportunidade de entender o que passa na cabeça de quem atende ao chamado de Sara Winter. Jesús Martín-Barbero, um dos mais importantes teóricos da Comunicação, defende que a cultura de massa, “vulgar”, é o principal objeto para entendermos a cultura de um grande povo, como os latinos. Até porque esse grande povo, na verdade, é só a junção de vários pequenos povos - processo conhecido como massificação. 

Dessa forma, os meios de comunicação de massa (criados para atender o estado e os grandes capitalistas) precisam encontrar o que há de comum entre esses vários pequenos povos. Esse processo pode empobrecer alguns elementos da cultura, mas também pode democratizar outros. Com a nossa tradição católica e patriarcal, não é preciso pensar muito para perceber que a natividade é um tema comum e sensível para todos esses pequenos povos.

Mais ainda se pensarmos que para uma população empobrecida, rural ou periférica, ter muitos filhos era uma forma de garantir mão de obra e sustento na velhice. O capitalismo latino é tardio, subdesenvolvido. Algumas culturas das sociedades capitalistas desenvolvidas ainda soam como afronta aos nossos ouvidos: secularização, liberdade sexual, controle de natalidade… Imagina então como essa conta vai ficar complicada se formos falar das sociedades orientais.


Utopia inteligente

A realidade sobre a natividade não é tão bonita como na trama da novela: um terço das mães brasileiras cuidam dos filhos sozinhas. A maioria sem acesso à educação e outros modos de ascensão social. Enquanto a natalidade no Brasil está caindo, a gravidez na adolescência continua mostrando a falta de políticas de planejamento familiar que pune às mulheres mais pobres. 

Toda a discussão sobre aborto na verdade nem cabe no caso da criança vítima de estupro - a questão ali era salvar a vida dela, e não simplesmente planejamento familiar. E mesmo na discussão geral, vamos combinar que as mulheres devem falar por si. O fato é que aborto é um fato, e certamente não é algo agradável para quem o pratica. Que tal apenas ouvir, entender e cuidar da saúde de quem se sentiu obrigada a fazer?

Todo povo tem as suas utopias, sua fé, suas narrativas originais (incluindo nossa democracia ocidental imperfeita, ou a figura do militar herói em todo filme estadunidense). Mas utopia é bem diferente de ficção. A trama da mulher que se sacrifica, se torna uma santa, e dá à luz a um salvador está na fé cristã, na novela, mas não costuma estar nas periferias das cidades empobrecidas da América Latina. 

Eu mesmo tenho minha fé cristã, ainda que nada tradicional. O meu livro da Bíblia favorito é Eclesiastes, onde o rei Salomão faz um tratado de ceticismo, pragmatismo e fenomenologia bem no seio do monoteísmo judaico. Só para provocar, eu te convido a ler Eclesiastes 4:2-3. Não que esse texto possa ser esgotado rapidamente, mas tenho fé no seu interesse. Aliás, tenho fé nos bons dramas, e no dia em que eles serão apenas expressões de amor.


Edson Nova é cantor e jornalista. Toda terça-feira sai um novo artigo sobre o universo da cultura POP. Compartilhe agora, e siga no Instagram e no Twitter.

Comentários

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    2. Eu concordo: pessoas que estudam um assunto devem sempre ser ouvidas, independente de terem vivido ou não determinada experiência. Falei sobre isso no artigo "Beyoncé, cagando regra ou glitter": o lugar de fala vai até certo ponto, e toda opinião qualificada é bem vinda. Neste artigo em especial eu preferi enfatizar que as mulheres devem falar por si porque, de um modo geral, a balança ainda está desequilibrada. Na maioria das vezes, homens decidem os assuntos relacionados às mulheres, brancos decidem os assuntos relacionados aos negros, e aí por diante. Eu sempre defendo que ciência social e militância política são coisas diferentes: do ponto de vista acadêmico, todos podem e devem falar sobre tudo. Mas do ponto de vista político, no bom sentido da palavra política, todos estamos precisando ouvir mais os motivos de quem se sente excluído e dialogar com eles.

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  3. Olá, Edson!

    Eu peguei o direcionamento pra cá lá no YouTube, no vídeo sobre a prisão do suspeito pelo estupro da menina de dez anos sobre quem todos estamos falando nos últimos dias.

    Bom, tenho muita dificuldade com a questão do aborto, mas sei que há situações em que não é simplesmente ser contra ou a favor.

    Tem a situação dos anencéfalos, os casos em que o risco de morte para a gestante é muito grande, além dos casos como esse de que tomamos conhecimento agora - a gravidez decorrente de estupro.

    A cabeça dessa menina, uma criança, há quatro anos sendo violentada por um tio, agora se descobrindo grávida, diante da iminência de uma cirurgia grave - é uma situação que mal dá pra nós mensurarmos.

    A atitude daquelas pessoas que foram ao hospital onde a cirurgia aconteceria foi realmente lamentável, reprovável, sobretudo em se considerando que muitas delas estavam ali movidas por questões político-partidário-ideológicas, mais que por uma real preocupação com a criança que estava sendo gestada.

    E aqui é que está o meu problema com o aborto. É a questão acerca da criança que está sendo gestada. A única que não foi mencionada por ninguém. Nem pelo Reinaldo Azevedo, nem pelo Megale, a Sheila e a Carla, nem pelo Cláudio Dantas, do Antagonista. Não ouvi referência a ela.

    Sim, é verdade, também era uma criança gestante, em uma gestação decorrente de um estupro, e quanto a esta não há dúvida que todo o amparo, toda a simpatia, todos os recursos, o cuidado, o amor, tudo e um pouco mais lhe é devido.

    O meu ponto aqui é: não havia mesmo outra solução? Alguém chegou a pensar em outra solução?

    Não a coisa simplista de, por se ser contra o aborto, obrigar ou tentar convencer uma criança de dez anos de idade a levar a termo uma gravidez nessas condições e "criar" o/a filho/a.

    Mas, pelo fato de a criança em gestação já estar com 22 semanas, ninguém pensou em uma cesariana, tentar que esse recém-nascido "vingasse", como se diz, e o/a adotar?

    Tantos casais em busca de uma criança assim, recém-nascida, para adotar, e a única solução que um Juiz de Direito de uma Vara de Infância e Juventude, que também lida com as adoções, encontrou foi o aborto?

    Pode ser que a decisão tenha sido dada há algumas semanas ou meses atrás, quando o feto não era viável, mas chegando aonde chegou, ninguém pensou em rever essa situação.

    Talvez, sei lá, esperar mais uma ou duas semanas, e fazer nascer a criança. Talvez ela morresse, sim, mas se lhe teria dado uma chance.

    22 semanas de gestação, a criança já tem unhas, já brinca com as mãozinhas, já ouve os sons externos, já pode ter hemorroidas por ingestão de pimenta pela gestante, e alterações na pressão arterial.

    Como que essa cirurgia foi feita? Como fazem com fetos menores? Introduzindo um objeto pérfuro-contundente no útero e despedaçando a criança? A meu ver, é horrível com qualquer feto, mas não estamos falando de um amontoado de algumas células ainda disformes, que muitos entendem não ser ainda um ser humano. Não! Fizeram isso com alguém que já se percebia e que já ouvia os sons externos?

    Sim, um daqueles desqualificados que ficaram na porta do hospital, se estivesse realmente preocupado com o direito à vida poderia ter feito essa proposta, talvez ao mesmo Juiz de Direito que deu a decisão - "Façam a criança nascer, cuidem dela numa UTI neonatal, e eu fico com ela!"

    Mas ninguém fez. Nem mesmo eu.

    E além de tudo, com a participação costumeiramente desastrosa dessa pessoa ensandecida que se intitula Sara Winter, e os desorientados que atenderam ao seu chamado, além de fazer sofrer mais a criança gestante, esqueceram completamente da criança em gestação.

    Impedir sua morte virou, naquela tarde, uma questão de militância político-religiosa. Manifestar-se a favor da sua morte, ainda que indiretamente, por uma reação de repúdio a Sara Winter e a certos setores religiosos, também se transformou numa questão ideológica. E nessa confusão toda a criança em gestação foi esquecida. E agora está morta.

    Luciano Pomponet
    Maricá - RJ

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    1. Oi Luciano, obrigado por ler e comentar. Realmente, esse tema é muito delicado. Como disse no texto, me considero cristão (embora não frequente nenhuma igreja), por isso, no foro íntimo, eu sou contra a pena de morte e contra o aborto como forma de planejamento familiar. Mas, pelo menos na teoria, as leis devem seguir a vontade da sociedade, e não o contrário. As estatísticas mostram que a prática do aborto é uma realidade. Mas os homens que abandonam seus filhos também são. E outra: a quantidade de crianças sem família (as filas de adoção são por recém-nascidos brancos sem irmãos). As realidades precisam ser encaradas com honestidade. O juiz não determinou o aborto da menina, ele apenas autorizou a possibilidade. Para se concretizar, era preciso viabilidade médica e a vontade da vítima. No fim das contas, um estado democrático deve ser isso: as leis protegem a todos, e garantem o exercício da vontade. A menina foi avaliada por psicólogos e assistentes sociais, e a vontade dela foi determinante. É muito difícil tentar entender essa vontade, porque a violência sofrida foi grande demais. Nessa história, nenhum dos possíveis finais era feliz.

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    2. Nossa!!! pensei exatamente o que Luciano Pomponet escreveu... uma tragédia para duas crianças. Uma pequena gestante que teve sua infância roubada sem condições de decidir.. já está pra sempre marcada. A outra, não nascida e já praticamente a termo, nem teve a chance. Não sei o que foi pior....

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  4. O tema se sobrepôs por ser um assunto muito delicado e como bons latinos o sensacionalismo foi relevante, mas te parabenizo pelo artigo. Cultura e teoria social nunca foram temas que me atraíram mas sempre me questionei sobre nosso jeito latino de ser... pra mim foi esclarecedor: na verdade somos a junção de vários pequenos povos.... o resultado final deu nisso!

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    1. Oi Rê, obrigado por ler e comentar. Espero que os temas continuem te interessando - um pouquinho de ciência social sempre ajuda a entender alguns dos nossos maiores dilemas. Sobre o caso da menina, infelizmente não tinha nenhum final possível final feliz. Qualquer resultado seria traumático. Só nos resta lutar e trabalhar para que isso não aconteça com nenhuma outra criança.

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