Marília Mendonça, crentes e bruxos


Esse título pode não fazer sentido à primeira vista. Talvez, nem à segunda. Mas os acontecimentos não perdoam: eles vão aparecendo e nem sempre dão tempo da gente ver o sentido deles. Especialmente no Twitter! Vamos juntos, e com calma, porque os fatos são muitos. Passando pela música sertaneja, a música gospel, e um mundo de fantasia, o tema é um só: estereótipos e preconceitos em relação à comunidade LGBT.

Vamos começar pelo fim que é mais fácil. J.K. Rowling voltou aos trends, sendo criticada por suas declarações transfóbicas. A notícia é velha: a autora da saga Harry Potter defende a linha conhecida como feminismo radical, que não reconhece as pessoas trans por achar que o machismo afeta mulheres cis e por elas deve ser combatido. Eu já escrevi especialmente sobre esse tema aqui. Mas a polêmica da escritora foi lembrada por tabela - a discussão sobre transfobia agora gira em torno da atual rainha do sertanejo. 

Marília Mendonça fez live no domingo, 09 de Julho, e virou a porta voz do que parecia ser uma antiga piada interna da banda. Ao que parece, um dos músicos teria ficado com uma mulher trans numa boate de Goiânia voltada ao público LGBT. Muitas risadas e, depois, muito desconforto. Diversos twitteiros classificaram a piada como transfóbica. Mas a resposta mais chamativa veio em um vídeo de Bruna Andrade, influenciadora digital e mulher trans. Ela fala sobre como o preconceito impede mulheres como ela de receber afeto, e provoca: se o músico ficasse com uma negra ou uma gorda, seria engraçado?  

A análise disso eu faço já, mas ainda preciso jogar na roda mais um fato: provavelmente o mais absurdo. A cantora gospel Isadora Pompeo participou na segunda-feira, dia 10, do programa Encontro, na Globo. Como de costume, ela usava roupas largas e confortáveis (no melhor estilo Rihanna ou Billie Eilish). Na entrevista, ela comentou que adora futebol e, quando criança, até sonhou em ser jogadora profissional. Pronto, esses dois elementos foram o suficiente para alguns twitteiros acharem que Isadora seria lésbica. Refeitos do choque, vamos pensar juntos.


Não julgue, para não ser julgado

Marília Mendonça não pensou duas vezes: admitiu que estava errada. Aliás, ela pensou duas vezes sim, e se desculpou pela segunda vez no mesmo dia. Ela disse que faria algo bem simples: se informar sobre o assunto, e dar às desculpas a mesma visibilidade que deu à piada. E se a própria pessoa criticada concorda que errou, quem mais iria se incomodar com as críticas? Talvez outros que queiram continuar cometendo o mesmo tipo de erro.

No dia seguinte à polêmica, por algum motivo que eu lamento, passei uns instantes pela Rede TV. Lá estavam Franklin David e Lígia Mendes chamando as críticas à piada da cantora de “mimimi” (muito original, né?). Eles também tentavam subir uma enquete, mais enviesada do que Rodrigo Bocardi entrevistando o representante do sindicato dos metroviários de São Paulo. Nada fora do comum: pessoas que não tem nada a ver com a situação (cisgênero) querendo determinar o que fazer e dizer.

Se você não é uma pessoa trans, como eu também não sou, o mínimo que a boa educação determina é que a gente pergunte em vez de afirmar. Se as pessoas trans se sentem ofendidas com esse tipo de piada, que tal procurar saber o motivo? Foi o que Marília Mendonça fez. O meio sertanejo costuma ser criticado por ter artistas e públicos conservadores, mas há grande chance dos críticos não serem muito diferentes.


Tira primeiro a trave do teu olho

Observando os tweets, não parece que foi o público evangélico quem questionou a sexualidade de Isadora Pompeo. Ao contrário, parecem ser pessoas que não gostam do meio gospel, e que levantaram essa possibilidade com sarcasmo e revanche. A maioria das igrejas cristãs não aceita a diversidade de orientações sexuais e identidades de gênero - até aí nenhuma novidade. Mas ver esses estereótipos contra uma artista, vindos de pessoas que se dizem progressistas, conseguiu me surpreender.

Diria mais: me parece um tiro no próprio pé. E a ironia só aumenta pelo fato das críticas à Marília Mendonça terem sido exatamente no mesmo dia. Não por acaso vários tweets apontaram a contradição: se defendemos que mulheres podem ser o que quiser, por que estereotipar as lésbicas com roupas largas e futebol? A luta simbólica não é como na álgebra: negativo com negativo dá um negativíssimo!

Sexualidade e identidade de gênero não são assuntos engraçados, nem envolvendo as pessoas ao lado e nem envolvendo as pessoas distantes. Na luta por mais justiça social, estereótipo é uma arma química que mata adversários, aliados e inocentes. Ser uma pessoa melhor exige escuta, menos pressa em opinar e, por que não, um pouco de fé.


Edson Nova é cantor e jornalista. Toda terça-feira sai um novo artigo sobre o universo da cultura POP. Compartilhe agora, e siga no Instagram e no Twitter.

Comentários

  1. Sempre me impressiono quando concluo algo sobre uma polemica, leio um texto no seu blog e me sinto compreendida. Concordo com tudo.
    Essa cultura do cancelamento não somente pune as pessoas por serem falhas, como "passam pano" pra pessoas que realmente precisariam ser mais questionadas. Se tornou seletivo. Isso é extremamente maléfico porque a gente julga, condena e executa a pena fazendo, às vezes, análises rasas como pires de pôr leite pra gato. Brasileiro perdeu há tempos a capacidade de analisar fatos, apenas os trata como se tudo fosse um "Corinthans x Palmeiras". E isso sempre me tirou do sério, ainda mais nessa gente que peca na interpretação de texto.
    Eu acho que essa tem tudo pra ser uma das melhores gerações: empaticas, inclusivas e que respeitam as liberdades individuais, mas essa questão de cancelamento é um dos efeitos colaterais que precisam de cuidados.

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    1. Completamente! Parece que as pessoas se preocupam mais em defender um lado e provar que o outro está errado. Mas a boa política é justamente a arte do acordo, onde os dois lados precisam ter perdas e ganhos.

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