A arte do herói


Eu escrevo neste blog só às terças - acho que ninguém ainda está tão interessado em ler meus artigos com uma frequência maior. Mas eu precisei abrir uma exceção. Todos souberam e se impactaram profundamente com a morte do ator, diretor e roteirista Chadwick Boseman. O anúncio já é o post de Twitter mais curtido da história. Conhecido principalmente por ter interpretado o super-herói Pantera Negra, no universo cinematográfico da Marvel, chamou a atenção o fato de que ele lutava com o câncer desde 2016. Em meio a cirurgias e quimioterapias, ele manteve tudo em segredo e deu vida aos personagens mais importantes de sua carreira.

Não gostamos de admitir, mas esse é o tipo de fato que nos deixa maravilhados. Nossa sociedade do espetáculo, nosso culto à celebridade, são cheios de contradições difíceis de encarar. Mas a morte trágica costuma trazer divindade ao artista, e lucros astronômicos às empresas donas de sua imagem.  O sistema é sim cruel, e espero que isso não seja uma surpresa para você. Mas ele ainda é feito de pessoas que, eventualmente, conseguem hackear e propagar uma mensagem inesperada.

Toda a trajetória de Chadwick aponta para isso. Filho de uma família de classe média baixa, ele começou a escrever peças de teatro ainda na escola. Na universidade estudou roteiro e direção. Decidiu estudar atuação por insistência de sua professora. O curso em Oxford, Inglaterra, foi financiado por contatos dela - fundos de apoio a “irmãos” são comuns na comunidade negra dos Estados Unidos. Anos depois, Denzel Washington descobriu ter sido seu financiador. Chadwick pareceu assim carregar todos os pesos e poderes da comunidade negra, desde o início até o fim de sua vida.


Começando até o fim

Não sou muito chegado a teorias sobre destino - acredito mais numa combinação de escolhas individuais e influência das estruturas sociais. Mas a vida de Chadwick Boseman me faz abrir uma exceção. No filme 42 (2013) ele interpretou Jack Robinson, o primeiro negro jogador de baseball. No filme Get on up (2014) ele interpretou James Brown, o rei da música Soul. Em 2016, quando já sabia que estava doente, ele começou a dar vida ao Pantera Negra, primeiro personagem negro a encabeçar um blockbuster de super-herói. No filme Marshal (2017) ele deu vida ao jurista Thurgood Marshal, primeiro negro a ser ministro da suprema corte dos Estados Unidos. Ele ainda planejava estrelar o filme Yasuke, interpretando o primeiro samurai negro. 

Em resumo: uma carreira quase que inteiramente dedicada a retratar o pioneirismo negro numa sociedade planejada para impedir a ascensão dos afrodescendentes. É uma ironia cruel que justamente um câncer tenha tirado sua vida. Porque, para essa sociedade, um negro bem sucedido é exatamente isso - uma célula mutante, não planejada, que põe todo o sistema em risco. Eu já escrevi especialmente sobre esse tema aqui. A dedicação de Chadwick ao trabalho, até o fim, é desconcertante. E o é  por ser extremamente poética. 

Pensa comigo. Antes mesmo de ser ator, ele era um dramaturgo. Também especialista em retratar pessoas reais, que fizeram muito pela sociedade e, por acaso, eram negras. Então, nos seus últimos quatro anos de vida, ele escreveu esse roteiro de sacrifício, onde interpretou a si mesmo interpretando outros. Entende? Todos os filmes a partir de 2016 foram uma metalinguagem, uma dramaturgia dentro de outra. O verdadeiro personagem era “o Chedwick Boseman”, heróico para toda uma geração. Nos deixar tão cedo, e de surpresa, foi o grand finale. Para nos lembrar que somos todos heróis e humanos na mesma proporção.


Duplique seu DNA

Os noticiários não param de mostrar pessoas negras sendo vítima de violência por parte do estado. No nosso quintal tupiniquim existem vários, mas as estruturas nos fazem prestar mais atenção aos casos nos Estados Unidos. Depois da onda de protestos pela morte de George Floyd, o movimento foi revigorado pela covardia sofrida por Jacob Blake, que levou sete tiros pelas costas e perdeu o movimento das pernas. Dói e assusta, mas não podemos esquecer que nada disso é novidade - a violência de sempre apenas está ganhando visibilidade.

Então, se eu posso recomendar alguma coisa sem parecer piegas, é que a nossa comunidade precisa continuar a se reproduzir. Não necessariamente no nível biológico, mas no nível simbólico. Os anticorpos do sistema continuam a tentar nos eliminar, mas Chadwick Boseman nos deixou um tutorial de como protagonizar a própria história, celebrar os próprios dramas sem ter que se desculpar nem dizer adeus.

Eu perdi minha mãe para um câncer em 2016. Ela tinha apenas 52 anos. Como venho de uma etnia e uma região empobrecidas, sempre trabalhei e estudei muito. Um dos meus maiores objetivos era poder apresentar a minha mãe um mundo com mais possibilidades. Mas não deu tempo. E depois que ela se foi, é como se todo o estudo e trabalho tivessem perdido parte de seu propósito. Mas eu continuo e não pretendo parar. Tenho uma sobrinha (que já apresentei nesse artigo) que representa uma nova geração de super-heróis em potencial. E toda possibilidade que alguém pequeno como eu puder criar é para que eles descubram seus super poderes. Wakanda para sempre!


Edson Nova é cantor e jornalista. Toda terça-feira sai um novo artigo sobre o universo da cultura POP. Compartilhe agora, e siga no Instagram e no Twitter.

Comentários

  1. Li submersa em lágrimas. Texto suuuper significativo. Suuuper importante.

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    1. Confesso que eu escrevi entre algumas lágrimas também! rsrsrs A esperança chega a bambear, mas precisa se manter de pé.

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    2. Parabéns pela divulgação do ator Chadwick Boseman ele foi um grande batalhador na vida um guerreiro, lutando contra o câncer e o melhor de tudo é que ele continuou sua carreira e teve sucesso na vida por causa do esforço e confiança ele é um verdadeiro guerreiro

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  2. muito bom o artigo!showw
    parabéns 👏👏👏

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  3. Uma dose de inspiração para começar a semana.

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    1. Oi Taíssa, obrigado por ler e comentar. Confesso que eu mesmo buscava essa inspiração enquanto escrevia. É um mega clichê, mas eu realmente acredito que momentos tão difíceis podem nos tornar pessoas melhores.

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  4. Edson parabéns por sua persistencia em lutar pelo que é bom. Dificil hoje saber o que é bom, pois, parece que o ruim transforma-se em bom e vice versa.
    A vida tras consigo a sombra da morte. Sinto muito por sua perda materna. Eu também já tive muitas perdas,mas, muitas vitórias também.
    Eu sei que a bíblia diz que neste mundo teremos muitas aflições, tribulações, mas nunca seremos angustiados se tivermos a esperança de Cristo Jesus.
    Nosso canal no YouTube visa a trazer verdade, assim durante uns quatro anos fiz pesquisa da biblia e fiz muitos videos de cunho cientifico a respeito de Isaias. Mas dificil é prosperar idéias culturais em meio a pandemia de videos de segunda classe no YouTube. Então há dois meses busco informar as noticias do nosso Brasil, visando dar mais espaço a biblia.
    Sou apenas um engenheiro civil, ex-professor de matemática, mas amo as coisas de Deus sem ser um religioso carola.
    Um grande abraço, você escreveu em comentarios do meu canal Antonio Mamede no YouTube e eu vi sua crônica.
    A sua disposição se puder acrescentar algum conselho.

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    1. Muito obrigado por ler e comentar. Agradeço mais ainda as suas palavras de fé e incentivo. Espero que continue a produzir o seu conteúdo, porque informação e bons valores são o que a nossa sociedade mais precisa. São tantos falsos-religiosos cometendo crimes, que a fé das pessoas fica abalada. Mas que a razão e o amor vençam!

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    1. Muito obrigado! Pena que o assunto seja tão triste. Espero que goste do restante do conteúdo.

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  6. Fala irmão! Acabei de ler aqui, que baita texto cara! Aprendi bastante coisa sobre o ator que eu não sabia! Parabéns mano! Continue firme aí! Um abração!

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    1. Obrigado por ler e pelo elogio. Ele realmente teve uma história de vida incrível, que vai inspirar muito essa geração. Outro abraço!

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  7. Muito interessante acreditar em DEUS NASCEMOS COM O PROPÓSITO QUE DEUS DESIGNOU PRA CADA

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    1. Eu sou cristão, e também meio cético (rsrs). Eu sigo muito a linha de pensamento do rei Salomão... Mas acredito sim em propósitos, e Chadwick cumpriu um grandioso que, para a nossa tristeza, chegou ao fim.

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  8. Li seu comentário, o ser humano se mostra muito cruel em muitas ocasioes,o negro é muito discriminalizado , em toda parte do mundo.Triste saber que fazem muitas atrocidades se achando melhor que seu semelhante, quando o fim é a morte,que é uma fila invisível, na qual estamos todos nela. Sua mãe cumpriu o propósito de Deus na vida dela,ficou voce para continuar seu exemplo.

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  9. Parabéns por escrever esse artigo. Eu sou cristã, e fiquei muito feliz de saber a respeito de Chadwich. Vivemos numa sociedade onde o racismo é estrutural e a cada dia a violência ocorre a toda hora. Chadwich deixou o legado de que temos potencial e os propósitos de Deus são maiores e melhores para aqueles que confiam Nele. Obrigada por compartilhar esse artigo.

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  10. Brilhante carreira. Ele cumpriu um grandioso proposito. Sinto por sua partida que nos deixou grandes licoes. Parabens pelo artigo.

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  11. Parabéns muito bom fiquei em lágrimas 👏👏👏

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  12. Uma linda e profunda homenagem não só ao eterno rei de Wakanda, mais a cada um de nós, mulheres e homens negros que lutamos diariamente para alcançar o protagonismo em nossas próprias vidas e a vencer em um mundo que parece ter sido feito para nos derrotar. Wakanda Forever. Insistir para existir.

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  13. Muito bom o texto!!
    Grande perda, é uma pena. 😢

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  14. Edson, fique contente por você ter comentado no vídeo do meu canal no Youtube. Hoje li uma declaração feita por Clarke Peters, que trabalhou com Chadwick em "Da 5 Bloods", onde ele diz que depois das gravações na Tailândia, Chadwick fazia terapias como massagens nas costas e nos pés. Clarke pensava que ele fazia tudo isso por vaidade, porque a fama tinha subido à cabeça. Mas, hoje ele se arrepende por ter pensado assim, porque, realmente o estavam cuidando. Chadwick necessitava de cuidados, mas nunca se queixou e demostrou que estava doente. Compartilhei o link deste seu artigo no meu perfil no Facebook. Um abraço.

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  15. Pauuuuuuuuuu grossooooo. #wakandaforever. Adorei seu blog. Continue assim

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