Beyoncé, cagando regra ou glitter



Ela é chamada pelos fãs de Queen B. Na indústria do entretenimento, a sua majestade é incontestável. Mas até mesmo as rainhas podem ir para a guilhotina. Beyoncé está de volta com novo trabalho e novas controvérsias. Em meio aos maiores protestos antirracistas da história ela lança o "filme" Black is King, que virou pivô de um debate muito duro em terras brasileiras. Talvez mais duro do que o necessário, e entre pessoas que deveriam estar do mesmo lado.

A ordem deste texto é: um resumo do que aconteceu; um resumo do que pensei; um resumo do que me tornei. Tudo começou mesmo quando Beyoncé cantou Formation no Super Bowl de 2016 ao lado de Bruno Mars e Cold Play. Aquele foi o momento em que  a indústria descobriu que ela era negra (já escrevi especialmente sobre isso aqui). Mas dê um Google pra entender como ela trabalhou sua identidade étnica nos anos seguintes. 

Vou pular para 2019, quando ela lembrou a todos que também é atriz, numa das obras mais esperadas da década: o re-make de O Rei Leão, da Disney, normalmente chamado de live action (embora seja apenas uma animação 3D realista). Ela deu voz à Nala, leoa par romântico do protagonista Simba. Logo em seguida, veio o álbum The Gift, onde ela canta a trilha sonora do filme. Já em 2020, ela lança na plataforma Disney + o Black is King. É um filme? Depende do ponto de vista. Seria menos confuso chamar de álbum visual: é uma sequência de videoclipes, unindo todas as canções numa única narrativa. E é nessa narrativa que nasce a controvérsia.

Caga-regra

Pensando bem, não existe narrativa sem controvérsia. Lilia Schwarcz, historiadora e antropóloga, deve saber disso melhor do que ninguém. Mas a sua análise do filme, publicada na Folha de S. Paulo, foi o ponto de polêmica entre artistas e personalidades negras (vai ver e volta aqui). Vamos combinar que o título do artigo dela faz levantar uma sobrancelha, e o subtítulo já chega dando um tutorial de como representar a cultura negra. O desagrado de muitos foi imediato. As respostas que mais chamaram atenção foram da cantora Iza e da jornalista e humorista Tia Ma. 

A crítica da crítica é: por mais que ela tenha conhecimento acadêmico, Lilia não tem a vivência da negritude, então estaria indo além daquilo que realmente é capaz de dizer. No Twítter, a pesquisadora chegou a pedir desculpas a quem se sentiu ofendido, mas frisou que a maior parte do texto é elogioso, e reforçou que todos deveriam lê-lo na íntegra. Eu li, e minha confusão só aumentou por dois motivos. 

O primeiro: enquanto a abertura é provocativa e até meio ácida, o artigo em si é analítico, metódico e rebuscado. Parece até que outra pessoa escreveu título e subtítulo para serem mais chamativos. O segundo motivo da minha confusão: Lilia explica diversos elementos que compõem o filme, mas não explica a sua opinião mais negativa: dizer que o álbum decepciona. Mas decepciona a quem? E por quê? É normal que fãs assumam o papel de defesa, mas, tentando pensar na obra em si, até que ponto uma intelectual branca pode realmente enriquecer o debate sobre cultura negra?

Caga-glitter

Certa vez, um colega me disse que achava a música gospel ruim porque, segundo ele, os cantores usam muito melisma. Isso faz tanto sentido quanto dizer que sobremesa é ruim porque leva açúcar. Cada gênero tem as suas características, as suas críticas internas, e foi-se o tempo em que jornalistas e intelectuais podiam criticar todo um gênero pelo simples fato dele existir.

Sem querer cair no discurso de que acadêmicos são elitistas, fica a impressão de que muito do que Lilia critica no filme de Beyoncé são elementos do gênero artístico onde ela está inserida. Glamourização de coisas vulgares, estereótipos, anacronismos, descontextualização, escândalo, inversões de sentido: o que seria do POP sem todos esses elementos?

Lilia Schwarcz dá a entender que os privilégios sociais impedem Beyoncé de ver a profundidade de alguns elementos da cultura negra e do continente africano. O irônico é que a antropóloga foi criticada pelo mesmo motivo. O artigo polêmico ainda diz que uma juventude negra tão inteligente e militante, que luta para rever a história dos livros contada apenas pelos brancos, poderia não se identificar com um filme cheio de elementos caricatos, e com narrativa utópica. Será?

Claro que eu só falo em nome de mim mesmo, mas eu sinto falta de um pouco de utopia, de um pouco de mitologia e encantamento; me sinto empoderado quando assumo controle de um estereótipo e inverto seu significado; me sinto no direito de às vezes só sentir. Essa coisa do “lugar de fala” não pode ir longe demais - toda opinião qualificada é bem vinda. Mas é sempre melhor propor em vez de determinar. Afinal aceitamos ajuda, mas porque queremos e não porque precisamos. Com diz Emicida na canção Gueto: “orgulho negro, sorriso afronta, noiz num é melhor nem pior e nem da sua conta”.


Edson Nova é jornalista, músico e eterno vigilante. Toda terça-feira sai um novo artigo sobre o universo da cultura POP. Compartilhe agora e siga nas redes sociais.

Comentários

  1. Seus textos estão excelentes!

    Só fiquei sabendo disso tudo por causa de uma publicação da Lilia, que confirma a sua suspeita: o título e subtítulo não são dela. Concordei em muitos pontos!

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    1. Que audiência qualificada: obrigado! rsrs Mas olha, ela podia rever esse copydesk porque a emenda não ajudou!

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