Em defesa da vulgaridade



Eu costumo comentar a arte da capa no final do texto, mas acho que devo explicar um pouquinho agora. Regina Duarte é duplamente oportuna para ilustrar esse texto: primeiro porque vou falar sobre subcultura, segundo porque ela levou ao ar um diálogo que até hoje é piada interna entre mim e meus irmãos. Feitas as apresentações, rezo para conduzir esse tema: o campo da estética, do “belo” e do “feio”, está sempre em guerra, e você pode acabar ferido de morte.

Exagero? Com certeza. Mas nem por isso errado. Vou ter que usar algumas teorias das ciências sociais porque o tema não é tão simples. Mas, ironicamente, é um dos temas onde mais tem gente dando pitaco. Mesmo quem não aceita valorizar a arte e os trabalhadores que a produzem está sempre pronto para criticar a estética. A última que eu vi foi alguém querendo comparar a escultura Modéstia Velada de Antonio Corradini com o Abaporu de Tarsila do Amaral (nem preciso dizer a orientação política dessa pessoa).

Você certamente conhece alguém que acha que o rock morreu, que o vinil tem o melhor áudio, ou que tenta fazer hoje uma MPB com cara de anos 1970. Se não conhece ninguém assim, é possível que essa pessoa seja você. Vamos conversar. Primeiro, a gente precisa entender como se formam algumas “verdades” coletivas. Depois, a gente vai ver de onde pode vir o golpe fatal.

Raiz versus Nutella


Sendo bem sincero, toda essa parte do texto pode ser substituída apenas por esse vídeo: Antigamente é que era bom (Canal Nerdologia). Nele, o historiador Felipe Figueiredo explica, com muita propriedade, de onde vem o efeito descrito no título. Mas, como eu adoro escrever, vou fazê-lo mesmo sem necessidade.

Eu sei que a maioria das pessoas não gostava muito da aula de História na escola, até porque muitos professores apenas ficavam repetindo datas. Mas História é uma ciência, indispensável para responder qualquer pergunta sobre o presente, a cultura, e também sobre a arte. Sabe o “raiz versus nutella”? Agora tem uma nova versão, com um doguinho caramelo fisiculturista e outro chorando. Esses memes são a prova de que você se tornou aquilo que tanto criticava: um saudosista que não aceita o novo.

Mas, até certo ponto, isso é normal e explicado pela ciência: trata-se da diferença entre História e Memória. Enquanto a História é uma ciência que usa métodos racionais, a memória é emocional, é um conjunto daquilo que conseguimos lembrar e da forma como preferimos lembrar. Essa é a deixa para voltarmos ao tema principal do artigo: em muitas escolas de arte, nas colunas da imprensa, nas conversas de bar da Vila Madalena, e em tantos outros lugares não existe História da Arte, existe apenas Memória da Arte.

Ou seja, você que defende Tarsila pode estar limitado às mesmas técnicas de quem a critica. Toda obra de arte (quadro, escultura, canção, prato de cuscuz, etc) nasce em um contexto, onde vários fatores estão envolvidos: organização social, disponibilidade de tecnologias, disputas políticas e aquilo que os pseudo-historiadores da arte mais abominam - questões econômicas.  

Só a vulgaridade salva


E onde entra a ferida de morte em tudo isso? Em algo que o movimento negro, por exemplo, já sabe há muito tempo: opressão estética e opressão politico-econômica são como o ovo e a galinha. Na sua teoria universal das linguagens, Pierce propôs a estética como o primeiro nível de formação da consciência, seguido pelo nível da ética e depois pelo nível da lógica. Ou seja, a partir do belo e do feio criamos o certo e o errado, e só no fim é que vamos criar a capacidade de ver quando algo faz sentido ou não faz sentido. Recomendo fortemente o livro Semiótica Aplicada.

O errado se torna feio e o feio se torna errado, e a lógica nem sempre tem espaço nesse ciclo. Aliás, a lógica chega a ser distorcida por alguns que querem justificar a eliminação do que consideram feio e errado. Eu sei, está bem abstrato, mas vou ser mais direto: todo opressor se justifica por considerar o oprimido feio e errado, ou errado e feio.  Não aceitar o funk como belo é o primeiro passo para normalizar a morte de quem o produz.

Até mesmo artistas e intelectuais de esquerda tentam hierarquizar as formas de cultura, nem sempre com muito critério. E nem é do filósofo Adorno que eu estou falando. Alceu Valença, numa apresentação de rua, usou o critério de “alma” para diferenciar arte de entretenimento, Milton Nascimento virou manchete ao dizer que a música brasileira está uma porcaria, e Ariano Suassuna dizia que o gosto médio é a pior coisa que existe. 

Esses são só alguns exemplos. O que esses mestres dizem não pode ser lido de forma simplória, mas o que eu quero aqui é apenas provocar. Você é progressista? Então comece a levar a sério o mais vulgar dos entretenimentos: os cientistas sociais já estão carecas de saber que é lá que estão as pistas para entender a formação da sociedade. 

E como prometido, o diálogo que inspirou a arte da capa. Na novela Por Amor, escrita por Manoel Carlos e exibida originalmente pela Globo em 1997, Regina Duarte vivia a protagonista Helena. Certo dia, no meio de uma briga, ela quis pagar de superior e disse que não iria descer as "escadinhas da vulgaridade"! No sentido de vulgaridade moral, sabemos que a atriz caiu rolando por essa escada. Mas no sentido de vulgaridade defendido no texto, sou eu quem te convida pra descer de mãos dadas.



Edson Nova é jornalista, músico e eterno vigilante. Toda terça-feira sai um novo artigo sobre o universo da cultura POP. Compartilhe agora e siga nas redes sociais.

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