Programa Pânico e a geração do ódio



Quando eu chego ao ponto de achar que o Adrilles é a pessoa mais sensata da situação, é porque o problema é sério. Virou pauta a participação de Mário Júnior no Programa Pânico, que foi ao ar no dia 14. Muitos acharam que o tiktoker foi humilhado na entrevista, já os fãs do programa se sentiram ofendidos com essa interpretação. Como sempre, o Twitter virou um campo de batalha.

No dia 20, a tag #SomosTodosEmilio estava entre os assuntos mais comentados no Brasil - claro que nem todos os tweets com essa tag eram a favor do apresentador. Eu já não ouvia/assistia ao Pânico há muito tempo, mas fui ver a entrevista com o Mário Júnior e achei bem oportuno para a gente debater algumas coisas. Primeiro, precisamos rever os fatos e saber se todo mundo realmente entendeu. Depois, a gente precisa pôr a mão no coração e rever como Mário Júnior constrói o seu próprio tempo.

O homem errado na hora certa


Apesar de terem subido tag com o nome do Emílio Surita, o autor da frase mais polêmica foi Samy Dana. Emílio pediu a opinião dele e, depois de dizer que não gostava do Tik Tok, Samy disse que só podia aconselhar Mário a estudar porque, segundo ele, isso que o tiktoker está vivendo é passageiro. Logo em seguida, Adrilles fez uma brincadeira com fundo de verdade: disse que Samy estava sendo preconceituoso, mas Emílio cortou Adrilles e disse que o outro apenas estava dando sua opinião. O programa foi encerrado sem nem uma despedida ao entrevistado.

Como eu reagi a tudo isso? Com três surpresas. Primeiro, eu fiquei surpreso com Samy Dana: ele era o principal comentarista de economia na Globo, e agora está na bancada de um programa de humor. A segunda surpresa foi com Adrilles: do tipo que fala bonito e não diz nada, ele vive defendendo o governo Bolsonaro, mas foi o mais sensato nessa entrevista com o Mário Júnior. A terceira surpresa foi comigo mesmo: por que eu era fã do Pânico e hoje já não gosto mais? O programa mudou ou quem mudou fui eu?

Rever o passado é sempre algo que deve ser feito com cuidado. Mesmo quando o passado é o nosso. Em 2011 eu virei um grande fã do Pânico na Jovem Pan, mesmo sem nunca ter gostado do Pânico na TV. Sem perceber, fui deixando de ouvir. Ouvindo hoje, a fórmula do programa me parece cansada, deslocada. Aliás, toda a Jovem Pan me parece presa nos anos 2000, como se não aceitasse o envelhecimento de algumas ideias.

Posso ser polêmico? Eu acho que Emílio Surita foi simpático com o Mário na maior parte do tempo. Mas teve uma coisa que me incomodou: ele costumava interromper e, em vez de perguntar, fazia afirmações capciosas. Parando para pensar, esse sempre foi o jeito do apresentador. É um recurso que funciona no humor, mas que soa deselegante quando a outra pessoa não tem nenhum domínio da audiência. Mário Júnior já tem um público enorme, mas com um perfil bem diferente da audiência que ainda ouve o programa Pânico. 

Como é hoje, o programa dá a impressão de uma geração dos anos 2000 ressentida com a geração dos anos 2010. Eu sempre digo que tenho saudade da MTV Brasil dos anos 2000 (Adnet, Calabresa, Tatá, Marimoon...), mas se essa fase tivesse continuado poderia estar com o mesmo ar “pós-adolescente” que não aceita o novo. Difícil admitir que coisas boas precisam acabar para continuar boas. Nós da geração 2000 fomos os primeiros a crescer com banda larga, e temos a impressão de que ninguém mais consegue ver o mundo como nós. Mas adivinha? Outra geração chegou. 

Juventude não precisa de perdão


Esses dias eu me peguei refletindo na vida depois de ver o conteúdo dos Irmãos Berti. Na verdade, eu vi um vídeo do Diva Depressão comentando os perfis deles no Instagram. Se você não conhece os irmãos Berti, não adianta correr porque eles nem estão mais juntos. Mas, basicamente, eles são loiros e fazem vídeos sarrando.

Joguei no Twitter: será que na minha adolescência tinha algo assim? E prontamente meu amigo Santiago me lembrou dos lendários colírios da Capricho! Caso você não lembre, eles até estrelaram uma série no Youtube chamada Vida de Garoto (no caso, garoto cis, hétero, branco, rico e mau ator). E qual não foi minha surpresa ao lembrar que um dos colírios era o Dudu Surita! O sobrenome parece familiar?

Sim, ele é filho do Emílio, e hoje se dedica à música eletrônica. Sim, eu acho muito irônico que a prole do Emílio faça coisas que a audiência dos programas dele consideraria vergonhosa. Não, meu objetivo aqui não é rir às custas de ninguém. De coração, eu só quero refletir. Seja um loiro sarrando no Instagram, seja um moreno seduzindo no Tik Tok, esses meninos e o público deles têm o direito de descobrir o mundo ao seu modo. Inclusive, têm o direito de ignorar o mundo anterior a eles - é assim que nascem as vanguardas. 

Talvez todos eles riam de si mesmos no futuro - hoje em dia eu morro vendo meu cabelo com gel, espetado, da época da escola. Aliás, talvez eles já estejam rindo de si mesmos agora. Quem disse que eles se levam a sério como a geração 2000 se levava? A gente, que não é mais sub-20, pode já ter perdido a capacidade de entendê-los. E está tudo bem. A dinâmica entre as gerações é essa mesma.

Acho que o Samy Dana falou rápido demais. O que ele quis dizer que é passageiro? Se for a fama do Mário, vai depender da gestão de carreira do garoto; se for a plataforma Tik Tok, vai depender de vários fatores da economia, da tecnologia e da sociedade. Já que ele é doutor e professor universitário, é justamente papel do Samy buscar entender esses fatores em toda sua profundidade. Quanto a nós, que vamos avançando no tempo, eu só desejo que nenhuma parte do nosso coração fique no passado: é nessa lacuna que nasce o ódio. 


Edson Nova é jornalista, músico e eterno vigilante. Toda terça-feira sai um novo artigo sobre o universo da cultura POP. Compartilhe agora e siga nas redes sociais.

Comentários

  1. Parabéns cara pelo seu trabalho, comecei a acompanhar o seu blog, muito legal. Sucesso.

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