Elon Musk cria a marca da besta



Os sinais estavam lá o tempo todo: a gente que ainda não tinha visto. Ele é dono de uma empresa de foguetes e já foi apelidado pela imprensa dos Estados Unidos de “Rei de Marte”. E Marte é o que? O planeta vermelho. Outro sinal: atualmente ele se relaciona com a cantora canadense Grimes, que já foi praticante da wicca e hoje é descrita pelos fãs como um misto de fada, bruxa e ciborg.

E agora veio a confirmação. Uma das empresas de Musk, a Neuralink, é especializada em criar chips para implante no cérebro, permitindo conexão entre a mente e os computadores. Ele disse no Twitter que estava trabalhando num chip que vai permitir ouvir música diretamente no cérebro, sem precisar de fones de ouvido. É ou não a marca da besta?

Não, claro que não. Mas não se surpreenda com a quantidade de pessoas que acreditam piamente nesse tipo de narrativa. Até aqui eu apenas fiz uma brincadeira, mas com um belo fundo de verdade. Fato é que Elon Musk parece acreditar que estamos muito próximos de uma distopia. Ele defende a regulação da Inteligência Artificial, inclusive criticando o trabalho do Google, cujos donos são seus amigos. Mas toda distopia tem um elemento principal que Musk parece estar ignorando. Elemento que é o tema central deste artigo: a política que não se assume como política. 

O enrustido


Depois de ganhar milhões criando o PayPal, ele reinvestiu a fortuna em empresas que pareciam loucura: uma montadora de carros elétricos (Tesla), uma fabricante de foguetes (SpaceX), e mais recentemente uma fabricante de implantes cerebrais (Neuralink), entre outras. Ou seja, pelas suas falas e pela forma como aplica seu dinheiro, Elon Musk parece ser um homem idealista, no sentido ambiental e existencial. Mas o que a política tem a ver com isso?

Nessa entrevista ele diz acreditar que o grande público não pensa muito em política, e que ele também não - apenas estaria em busca da verdade das coisas, e defende que a política está nos olhos de quem vê. De fato a sua atuação na política é confusa: ele era um apoiador de Obama, depois chegou a fazer parte de um conselho no governo Trump, e agora está indiretamente apoiando a candidatura à presidência de Kanye West (nem a Blogueirinha tem tantos projetos sem sentido quanto ele). 

Bom, nós temos João Dória aqui no Brasil, então já dá pra entender o perigo de um grande capitalista que faz política sem admitir que está fazendo. Nas distopias, a trama nunca gira realmente em torno da tecnologia, e sim da forma de organização da sociedade. Em outras palavras, a ficção científica na verdade explora conflitos sociais, políticos e até filosóficos.

Quer um exemplo da vida real? Eu trago outra polêmica de Musk envolvendo a Bolívia. Começou quando ele disse no Twitter que era contra os auxílios emergenciais na pandemia. Um dos seguidores respondeu dando a entender que o governo dos Estados Unidos apoiou a derrubada do presidente boliviano Evo Morales, e que a Tesla teria interesse direto nisso porque a Bolívia tem as maiores reservas de lítio do mundo (os carros elétricos usam baterias desse material). 

Musk respondeu com o que seria uma brincadeira, de gosto bem duvidoso: “Vamos dar o golpe em quem quisermos, lide com isso”. Depois, ele chegou a apagar a postagem, mas a polêmica já estava criada. Goste ele ou não, a tecnologia do futuro utópico de Elon Musk está sim no meio de jogos políticos e econômicos nem sempre leais.

O apocalipse nosso de cada dia


Além de ser tecnologicamente possível, toda grande mudança precisa ser economicamente viável, ambientalmente sustentável e socialmente aceitável. Pois é: até pra falar de tecnologia vocês vão ter que engolir as ciências humanas e sociais. Elon Musk abre uma brecha perigosa quando dá a entender que o avanço da tecnologia não tem relação com a política, como se os seres cibernéticos tivessem sua própria seleção natural. A internet hoje parece natural? Mas não esqueça que ela nasceu com investimento militar dos Estados Unidos, e que ainda depende de empresas e servidores desse país.

Toda vez que Elon Musk cria polêmicas na internet, ele pode dar a impressão de ser um gênio-louco movido somente pelo idealismo. Mas ele é um grande capitalista, e todas essas polêmicas manipulam o valor de mercado das ações de suas empresas. Mais do que a tecnologia delas, mais do que o capital de investidores, o principal ativo financeiro das empresas de Elon Musk é o nome e a imagem de seu criador. Há muito tempo o mercado financeiro funciona assim: muito parecido com o mercado publicitário.

Acho que ficou claro que eu não estou fazendo críticas a Elon Musk, mas sim à aura que se cria ao redor dele, e ao discurso político enrustido que ele propaga. Talvez até por ingenuidade: todo mundo que é muito bom em alguma coisa corre o risco de achar que pode opinar sobre tudo. De resto, implantes cerebrais podem ser um grande salto na medicina, a Inteligência Artificial precisa de cuidados sim, o meio ambiente deve ser prioridade, e por enquanto não vejo problema em pensar noutro planeta como plano B. Elon Musk está dedicado a evitar o fim do mundo. Bom! Só tome cuidado para a democracia não acabar antes.


Edson Nova é jornalista, músico e eterno vigilante. Toda terça-feira sai um novo artigo sobre o universo da cultura POP. Compartilhe agora e siga nas redes sociais.

Comentários

Mais Lidas