Run the world: conheça o Festival Vagão Delas



Maioria em números, minoria em direitos, hegemonia na criação. Um grupo delas, de São Paulo, está dando vida a um experimento de arte, economia e resistência! Nos dias 01 e 02 de agosto vai ao ar o Festival Vagão Delas - 12 horas de música com artistas independentes dos mais diversos gêneros. E sim, essa última palavra tem duplo sentido. 

Organizado pela Coletiv.a (sacou ;-)?) também chamada Vagão Delas, o evento vai acontecer por meio de live no Facebook, na página da Casa Cultural Hip Hop Jaçanã, com apoio do coletivo Estética Urbana. O primeiro time a dar vida à Coletiv.a inclui as cantoras e compositoras Mil, Sarah Mayer, Lara Thomaz e a produtora cultural Rebellato. 

Diversas convidadas, convidados e convidades também farão parte do Festival, reforçando a linha de frente da arte de rua e da linguagem independente. Já está no ar a campanha de arrecadação para custear o cachê de todos os envolvidos: você pode contribuir clicando aqui

Mesmo com tanto trabalho, as organizadoras do festival bateram um papo sobre o evento, e diversos outros temas que passam por ele: representatividade, o mercado de trabalho da arte independente, os desafios e lutas de toda mulher. Mas, como tudo que elas criam, essa entrevista não será convencional. Duas vozes responderam, representando tantas outras outras, e resolvi não dizer qual é qual. Rebellato,  21 anos: produtora de eventos, artística e cultural; uma das articuladoras do Selo Jhama. Mil, 19 anos, "brasilandier", artista independente e produtora de eventos. Leia a íntegra abaixo, e entenda como nascem as vidas feitas de arte.





CONCEITO NOVA: Quando começou o coletivo? De onde veio a ideia e como se deu essa união?

VAGÃO DELAS: A princípio, o Vagão delas era o nome da dupla musical da Mil e Sarah Mayer, surgiu pela facilidade de divulgação, pois ambas dizendo seus @ próprios nos trilhos [apresentações no metrô de São Paulo], ocupava muito tempo de apresentação e não facilitava para o público. Durante a trajetória de ambas, ficou eminente que as suas necessidades poderiam agregar e aproximar outras pessoas. Disso convidaram Lara Thomaz, uma artista que compartilha dos mesmos ideais e, assim, se solidificou a ideia de um coletivo. Logo após, pensando em estrear o coletivo, as meninas decidiram organizar um evento. Convidando a Rebellato para a organização, a parceria foi tão verdadeira e compatível que a própria se tornou também membro do coletivo.


CN: Como e quando veio a ideia de fazer esse evento? Quais os objetivos de vocês?

VD: Fizemos o evento para estrear o coletivo, e criar portfólio, mas não apenas isso. Nós queremos inserir cada dia mais os artistas independentes em espaços e reivindicar nossos direitos de expressão em qualquer lugar, lutando contra a discriminação do artista e da arte de rua. A ideia do evento surgiu antes da pandemia e, para recriar o projeto, foi decidido fazê-lo em formato de lives.


CN: Quais têm sido os maiores desafios na organização deste festival?

VD: Trabalhar com a arte independente já é um desafio por si só. A falta da visibilidade dificulta o nosso objetivo, como conseguir arrecadar nossa meta para o cachê colaborativo.


CN: E quais têm sido as surpresas positivas que vocês encontraram?

VD: O apoio de muitos artistas independentes e dos colaboradores:  coletivos, estúdios e Casas Culturais. 


CN: Enquanto produtoras, até que ponto vocês avaliam a importância dessa figura no trabalho dos artistas? E qual a parte artística do trabalho de produção?

VD: É de suma importância o trabalho de produtoras de eventos. Sem nós seria difícil obter a qualidade e a produção em si de um evento. O evento surge através da produção, sendo assim tirando o peso do artista ter que se multiplicar para poder organizar sua própria apresentação. Existe diversos nichos de produções em eventos.


CN: Como a pandemia afetou seu trabalho e dos artistas que trabalham com vocês?

VD: Dificultou, sou autônoma e trabalho com eventos, aglomeração, além dos demais trabalhos que exerço. Agora tenho que recriar todos os projetos que já haviam sido planejados. Isso cabe ao trabalho de todos os artistas em meio a essa pandemia.


CN: Vocês acreditam que as mulheres vivem uma situação diferente no mercado de trabalho das artes? Como?

VD: Segundo dados de 2019 do DATA SIM, 84% das brasileiras ligadas ao setor musical já foram discriminadas no trabalho por ser mulher, E apenas 10% das que trabalham com música são escaladas para festivais. Já segundo dados do mesmo ano da ONG WIM, a cada 10 profissionais contratados no setor musica no mundo, apenas 3 são mulheres. Com toda certeza sim, mulheres em qualquer lugar vivem em situações de diferença. No mercado de trabalho das artes não muda, uma mulher que exerce a mesma função de um homem ainda é vista como alguém incapaz de fazer igual ou melhor.  


CN: Recentemente tivemos declarações polêmicas da autora de Harry Potter, JK Rowling, sobre pessoas trans. E tivemos também o mês do orgulho LGBTQIA+. O Coletivo Vagão Delas; enfatiza muito a inclusão de artistas trans e não binários. Mesmo sendo uma mulher cis, como você avalia a condição dos artistas trans e o que precisa mudar?

VD: Se para uma mulher cis o mercado de trabalho já é complicado, é possível ver que para uma mulher trans, ou outres do grupo lgbtqia+, com certeza é bem mais complicado. Pois as condições são completamente exclusivas e desumanas, e só mudam inserindo mais e mais pessoas nos locais representativos. Acreditamos também que só isso não basta. Estarmos levantando bandeiras, dizendo ser representativas, e se a gente não inserisse as pessoas de fato, e se a gente não acompanhasse as lutas de cada ume? Nosso coletivo está aberto, para pessoas dispostas a somar conosco, independente de como ela é, isso nunca será um empecilho!


CN: Quais mudanças no mercado artístico você considera mais importantes?

VD: O reconhecimento, a valorização e inclusão como um trabalho. 



Edson Nova é jornalista, músico e eterno vigilante. Toda terça-feira sai um novo artigo sobre o universo da cultura POP. Compartilhe agora e siga nas redes sociais.

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