O passado da TV pode ser apagado?



Este artigo precisa começar deixando bem clara a minha posição: eu sou um apaixonado por sitcom. É o meu gênero de série favorito, e Friends está entre as mais importantes na minha memória afetiva. Mas esse programa virou objeto de debate sobre representatividades (racial, sexual, de gênero..) e até parte dos criadores e protagonistas já se pronunciou. Esse tema ganha força com as recentes manifestações contra o genocídio de pessoas negras - que continuam sim, porque um problema tão profundo não vai se resolver em uma semana.

Para quem não assistiu televisão nos últimos 25 anos, Friends é uma série de humor dos Estados Unidos, que estreou em 1994 e durou até 2004. Em 10 temporadas, se tornou um dos programas de TV mais influentes de todos os tempos. A trama se passa em Nova York, e é protagonizada por seis amigos que satirizam os dramas sentimentais e profissionais dos adultos de classe média.

O maior problema que a audiência de hoje passou a apontar é o fato de todos os protagonistas, três homens e três mulheres, serem brancos, cisgênero e heterossexuais. Um dos primeiros envolvidos no show a se manifestar foi David Schwimmer. O ator que deu vida a Ross falou que sempre insistiu com a produção para que seu personagem se relacionasse com mulheres não-brancas: ele chegou a namorar uma mulher amarela e uma mulher negra por poucos episódios.

Também vimos o posicionamento de Marta Kauffman, co-criadora de Friends: ela pediu desculpas, disse que hoje a série seria diferente e que a equipe não fez o suficiente para garantir maior diversidade. Lisa Kudrow, intérprete de Phoebe, também se pronunciou mas essa fala eu vou deixar na última parte. Antes, é preciso problematizar a própria ideia de representatividade.

Se for militar, milite direito


Esse intertítulo é autoexplicativo, mas vou reforçar citando outra sitcom: Um maluco no pedaço, temporada 1, episódio 17. Will acha que já sabe muito sobre o movimento negro por ter lido a autobiografia de Malcolm X, e tia Vivian rebate: "Will querido, você pode ler livros, usar camiseta, colar posters na parede e gritar palavras de ordem. Mas se você não conhecer toda a história, estará banalizando toda a luta".

O jurista e filósofo Silvio Almeida, autor do livro “Racismo Estrutural”, já problematizou diversas vezes o que se chama de representatividade: o fato de ter pessoas negras em certas posições de poder pode até ser usado como desculpa para fingir que o racismo não existe. Ou seja, representatividade importa mas não resolve tudo.

A internet tem imaginado como seriam tramas famosas se os personagens fossem negros, mas quando isso foi tentado gerou um grande mal entendido. Em 2014, foi ao ar na Globo a série Sexo e as negas, escrita por Miguel Falabella. A ideia era uma releitura de Sex and the city com quatro protagonistas negras do subúrbio carioca. Só pelo título, antes mesmo da estreia, a internet cancelou a série achando que ela iria sexualizar a figura da mulher negra. Foi um trocadilho que ninguém entendeu.

Pode não parecer, mas Friends lida com algumas questões étnicas. A maioria dos estadunidenses é branca de origem anglo-saxã, e eles têm muitas diferenças com os brancos de origem latina. Na série tínhamos dois deles: Phoebe, de descendência francesa, e Joey, de descendência italiana (perceba que os dois são os mais sexualizados, considerados mais artísticos e menos inteligentes; esses são estereótipos da comunidade latina nos Estados Unidos). E nem vamos falar sobre antissemitismo e o fato de Monica e Ross serem judeus. Com diversas piadas lidas hoje como homofóbicas, classistas e gordofóbicas, me arrisco a dizer que a falta de negros no elenco fixo é o menor dos problemas em Friends.

Cápsula do tempo


Nesse última parte eu vou trazer a fala de Lisa Kudrow que eu fiquei devendo, mas você vai entender o motivo de ter feito esse suspense. A minha análise está totalmente comprometida por eu ser um fã, mas acredito que a maior parte dos problemas da série vem de uma característica que, ao mesmo tempo, advoga a seu favor: o gênero sitcom.
 
Considerado por muitos um gênero menos importante dentro da própria ficção de  humor, a sitcom têm dores e delícias que são só dela. Quase um teatro gravado, as cenas são feitas com plateia no estúdio; os episódios costumam ter apenas 20 minutos, quase sem continuidade (dá para assistir em ordem aleatória e entender); os roteiros quase jornalísticos mostram o cotidiano. Atenção nessa última característica.

É aqui que entra a fala de Lisa Kudrow. Ela reconhece que Friends seria muito diferente se fosse feita hoje, mas sugere ao público que veja o programa como uma cápsula do tempo. Ela diz ainda que, apesar de tudo, Friends era considerada uma série progressista em seu tempo: tivemos casamento lésbico (Carol e Susan), barriga solidária (Phoebe gerou os filhos do irmão), adoção (Mônica e Chandler não podiam ter filhos biológicos), transsexualidade (o "pai" de Chandler é uma mulher trans), entre outros. 

Perceba que tudo se trata de exigir de um gênero apenas aquilo que ele pode oferecer. A sitcom não foca nas questões internas dos personagens, e sim na ironia das situações cotidianas ao redor deles. Por isso, tende a ser o gênero mais universal! Repare: entre as séries de maior audiência nos Estados Unidos, sempre tem alguma sitcom (o último fenômeno do gênero foi The Big Bang Theory). Mas o prejuízo desse formato é que, por ser tão jornalístico, fica datado muito rapidamente. Então não tem jeito: ou você assiste uma sitcom antiga com os olhos da época em que ela foi feita, ou não vai conseguir gostar. Friends foi feita na virada do milênio para a virada do milênio, e quem quiser apreciar precisa viajar até lá.

Assistir humor estrangeiro exige algum conhecimento da língua original para sacar nuances (sem saber Espanhol, você não sabe porque Chiquinha está em dúvida se Valentim se escreve com V ou com B). Mas assistir sitcoms estrangeiras exige também conhecimento sobre a sociedade original: história, política, subcelebridades, memes… Não que outros gêneros não exijam essa compreensão, mas o drama não sofre se for intercalado com uma pesquisa. Já o humor é ferido de morte porque timing é tudo: nada pior do que ter de explicar uma piada, e para si mesmo!

Estou muito longe de chegar a uma conclusão definitiva, falei como fã, e continuo em busca de mais informações e melhores compreensões. Mas o fato é que a história é um fato, e ninguém está imune a ela (reveja suas piadas de 10 anos atrás). Olhar criticamente para o que fomos é a melhor forma de garantir a evolução daquilo que somos. O humor e a crônica cotidiana vão continuar sendo algumas das armas mais poderosas contra o status quo. Fale o que pensa, divida para somar, e seja bem vindo ao caminho para o futuro.


PS: Na arte da capa eu imaginei personalidades negras brasileiras protagonizando a série (o ator Lázaro Ramos, a atriz Taís Araújo, a filósofa Djamila Ribeiro e o ator e humorista Paulo Vieira). Se não conhece algum deles, não sabe o que está perdendo.


Edson Nova é jornalista, músico e eterno vigilante. Toda terça-feira sai um novo artigo sobre o universo da cultura POP. Compartilhe agora e siga nas redes sociais.

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