Discriminação positiva: o negro infiltrado


Dessa vez vou deixar a lição de moral logo no início: a discriminação existe. E pronto. Seja para o bem ou para o mal, seja para um grupo ou para outro, seja de propósito ou sem querer. O fato é que você não trata todos da mesma forma. Aceite isso. A partir dessa premissa, a gente pode conversar. Não vai doer nada, só vamos exercitar o olhar sobre fatos recentes.

A Globonews virou pauta por fazer algo meio que óbvio: reunir jornalistas negras para debater os protestos anti racistas nos Estados Unidos, e contar as suas próprias experiências de discriminações raciais sofridas. Na ocasião, Maria Júlia Coutinho defendeu um ponto: é preciso naturalizar a presença dos negros em todos os debates, não apenas sobre o racismo.

Outro fato já nem tão recente. O Youtube me lembrou de uma entrevista que o humorista Hélio de la Peña deu no falecido Programa do Porchat na Record. Na verdade, vários humoristas negros falaram de suas experiências com o racismo. Hélio contou que era o único negro numa escola de classe média do Rio de Janeiro. Quando o tema da aula de história era a escravidão, então ele pensava: “agora todo mundo vai descobrir que eu sou negro”. 

Então basta ligar os pontos. O mundo ocidental contemporâneo foi construído com colonialismo europeu e escravização em massa de negros africanos. Essa herança está impregnada em tudo, e é por isso que alguns espaços e alguns temas ainda não estão ao acesso de pessoas negras. Existem duas formas de tentar mudar isso: ou bater de frente com o sistema, ou ir se infiltrando por dentro dele.

Fatos são fatos


A política de cotas raciais é uma mistura dessas duas estratégias: ela foi conquistada por movimentos que batiam de frente, mas o efeito dela é uma infiltração lenta e gradual nos espaços de poder. Um argumento dos críticos é que as cotas promovem uma discriminação. De certa forma, sim. Mas não tenha pressa em classificar isso como ruim. Como sempre, um pouco de teoria ajuda a entender.

Existe algo sobre as ciências sociais que nem todos parecem aceitar: elas são ciências! E como tal, o seu papel é observar os fatos de forma metódica e rigorosa; formular hipóteses, testá-las e propor teorias que explicam o porquê das coisas serem como são. Classificar os fatos como bons ou ruins é algo que cabe à ética, e não à lógica. E é aqui que eu resgato o primeiro parágrafo: a discriminação é um fato, que pode ser usado para o bem ou para o mal, mas não pode ser negado.

Filas e assentos preferenciais para idosos são uma discriminação. Banheiros e entradas acessíveis para pessoas com deficiência são uma discriminação. Mas todos podem ver que, além de beneficiar um grupo sem prejudicar outro, existe uma justificativa biológica. Logo, já concordamos todos de que são discriminações positivas.

Mas e se, em vez de biológica, a justificativa for histórica e cultural? Esse é o caso das discriminações por etnia, gênero, ideologia política, entre outros. Nesses casos, as justificativas dos grupos prejudicados são sempre questionadas, como se as ciências sociais fossem menos científicas. Quando convém, os donos do poder dizem acreditar que todos são iguais.

A discriminação positiva


As jornalistas negras da Globonews conseguiram se infiltrar tão bem no sistema pela competência profissional, que a própria Globo nem se tocou de que elas têm o lugar de fala para debater sobre racismo usando a própria vivência. A indústria fonográfica tomou o mesmo susto com Beyoncé em 2016 quando ela apareceu no Super Bowl cantando Formation: todos descobriram que ela é negra.

Vamos ser honestos: Beyoncé não seria Beyoncé somente lançando discos como Lemonade. E o próprio Lemonade não alcançaria a relevância que alcançou se fosse o conteúdo principal de sua obra. Depois de anos servindo ao entretenimento, ela ganhou o direito de militar sem ser acusada de oportunista como o movimento negro é acusado.

Na sua época, Whitney Houston foi criticada pela comunidade negra dos Estados Unidos por sair do R&B de raiz e se tornar uma cantora POP: veja no documentário Can I be me. Porém, a geração atual parece ter entendido que ser um ícone da cultura POP também é uma forma de naturalizar e dar visibilidade a uma comunidade. Agora se é uma forma boa ou ruim, deixo que a sua ética responda.

Mas, afinal, é melhor bater de frente com o sistema ou se infiltrar por dentro dele? Outra fala de Maria Júlia Coutinho na Globonews deixa claro: o discurso da meritocracia precisa ser combatido, porque ela e suas colegas, mesmo em desvantagem, tiveram oportunidades. Entendeu? Os infiltrados são a exceção que confirma a regra: eles deixam claro que medidas afirmativas não são nenhum favor, deixam claro que o próprio sistema só tem a ganhar com a diversidade. As duas formas de luta apenas se complementam.

O que esperamos do futuro é que a cor da pele nem seja negada e nem chegue primeiro. Um futuro onde todo tipo de pessoa vai ter legitimidade para falar sobre todo tipo de assunto. Mas isso só vai ser possível quando entendermos que a condição de igualdade só virá com as políticas de equidade. Até lá, let’s get in formation!



Edson Nova é jornalista, músico e eterno vigilante. Toda terça-feira sai um novo artigo sobre o universo da cultura POP. Compartilhe agora e siga nas redes sociais.

Comentários

Mais Lidas