O alinhamento dos astros: artistas criam Chapéu Virtual




Tudo começou ao lidar com uma necessidade: como artistas independentes vão conseguir se manter em meio à pandemia de Covid-19? Trabalhando nas ruas, nos vagões de metrô, nos bares e aparelhos públicos, seus locais de trabalho tiveram de ser esvaziados. Um grupo da cidade de São Paulo resolveu unir forças, e gerar algo novo. A partir da criação do coletivo iNTERDEPENDENTE, o fruto foi uma plataforma de divulgação e financiamento: o Chapéu Virtual.

A referência do nome é clara: o chapéu é normalmente usado por artistas de rua para recolher a contribuição do público. Mais do que algo funcional, virou um símbolo que atravessou os séculos, representando o respeito da audiência que reconhece os anos de estudo e preparação que um artista precisa ter. Em formato virtual, o site criado pelo coletivo permite conhecer o perfil dos músicos e escolher o valor da contribuição. 

Indo mais além, a página é uma forma de conhecer o material de cada um, e está permitindo o diálogo entre representantes de gêneros musicais bem diferentes. Segundo os idealizadores, várias reuniões virtuais estão acontecendo. O objetivo é continuar desenvolvendo ideias, e permitir que esse projeto beneficie à arte independente mesmo depois de acabada a pandemia.

Os cantores Gabs e Marilhia Freire foram os primeiros a pensar na criação do coletivo Interdependente e no portal Chapéu Virtual (a íntegra da conversa com eles você pode conferir no áudio mais abaixo). Mas a ideia logo foi abraçada por outros nomes, que passaram a divulgar os ideais do coletivo como uma grande rede criativa. 

Entre as novidades planejadas, já se pode esperar material original para o site Chapéu Virtual, inclusive com participações entre eles e canções exclusivas. Aí entra o trabalho de estúdios e selos fonográficos que já apoiam a iniciativa do coletivo: Estúdio Jhama e Estúdio 1086, além do coletivo e selo fonográfico Sigosom

Sinais do universo


Marílhia e Gabs contam que acabaram pensando juntos, mas separadamente: ela, que também é atriz e educadora e integra outros grupos de mulheres empreendedoras, teve a ideia do Chapéu Virtual pensando na interrupção do seu trabalho constante de tocar nos vagões de metrô; já Gabs, que também faz música nesse e outros espaços, pensou no projeto a partir de um papo recente numa live da cantora Bia Ferreira.  

“Acho que isso é um sinal do universo. O que estava faltando para dar o próximo passo? Era isso, uma parceria. A gente, eu e o Gabs, se completa. É fogo e ar, áries e gêmeos” explica Marílhia. Ambos destacaram os objetivos da iniciativa como parte de uma economia colaborativa, onde não apenas são arrecadados recursos, mas também são pensados novos caminhos para a cultura. 

Quando ao nome do coletivo, Gabs foi direto: “cada um tem sua vida mas a gente está conectado de alguma forma. Juntos a gente consegue chegar num lugar melhor”. Marílhia aproveitou para fazer uma crítica à própria ideia de artista independente: “somos dependentes de editais, de espaços para tocar… É o momento de repensar essas nomenclaturas. A gente precisa se unir, se relacionar, enquanto artistas e com o público que nos aprecia”.

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Os dois fazem questão, inclusive, de lembrar que a ideia não é exatamente nova, por isso afirmam que estão “canalizando” ideias. O próximo passo é reunir os membros do coletivo para aprender com palestras de profissionais competentes nas mais diversas áreas, desde a comunicação social até o direito. Um bônus nessa entrevista foram as falas sobre as pretensões do coletivo iNTERDEPENDENTE em termos de linguagem artística: ouça a íntegra da conversa no áudio no fim da página.

Primeiro grupo de artistas do Chapéu Virtual

Um resumo da constelação


Marílhia Freire é cantora, compositora, atriz e educadora. Nascida no norte do estado de Minas Gerais, cresceu e vive na cidade de Guarulhos, região metropolitana de São Paulo. É também idealizadora do Coletivo Laboratório de Experimentação de Nóiz.

Gabs é cantor, compositor e multinstrumentista.  Filho da zona norte paulistana, além da carreira solo autoral também toca guitarra na banda Velho Board.

Baobá é cantor e mistura o soul e o blues com canções tradicionais do Candomblé e Coco de Roda, explorando novas possibilidades para a arte brasileira na sua ancestralidade negra.

Lara Thomaz é cantora e compositora da zona leste de São Paulo. Com formação em canto popular, e atualmente estudando regência, é dona de uma voz inacreditável. Seus primeiros trabalhos gravados exploram diferentes gêneros.

Meu Nome é Francisco é um cantor, compositor e multinstrumentista paulistano. Suas canções exploram as fronteiras entre a poesia, as tradições da MPB e a música eletrônica. 

Mil é cantora, compositora e ilustradora natural da Brasilândia, região noroeste de São Paulo. Filha de artistas independentes, ela segue a tradição e inova em diferentes linguagens.

Pablo Paulo é um violinista imerso de cabeça na música popular e urbana. É membro do Samba do Gaiato, uma roda de samba com apresentações regulares, e também faz parte do coletivo de street dance Rangers Urban Force. 

O DJ Batata Killa nasceu Danilo e, através de todas as expressões do movimento Hip Hop, se tornou um importante representante do Rap da zona norte de São Paulo. Hoje também integra o grupo PrimeiraMente.

O coletivo Treme Terra S.S. busca resgatar as origens do reggae: a sua relação com questões sociais, políticas e religiosas. A intenção é ajudar a manter a conexão das periferias com as suas raízes.



Edson Nova é jornalista, músico e eterno vigilante. Toda terça-feira sai um novo artigo sobre o universo da cultura POP. Compartilhe agora e siga nas redes sociais.

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