Calar a boca é uma ciência



Eu sei que é com boa intenção que você emite suas opiniões. Mas (e é com todo carinho do mundo que eu digo isso) boa parte delas pode ser desnecessária. Não tomar cuidado com isso está fazendo muita gente perder dinheiro, muita gente perder a reputação, e muita gente perder a própria vida. Muitos ignoram os fatos, veem apenas o que querem ver, e acabam levando todos nós a um lugar perigoso.

Nos últimos dias, um mundo mágico foi abalado pela dura realidade. Já a realidade segue abalada por delírios tão fantasiosos que, se fossem escritos num livro, a crítica consideraria clichê. Sim, vou falar da J.K. Rowling. Sim, sou um fã dos livros de Harry Potter. E sim: vou achar um gancho para relacionar isso com o Atila Iamarino porque ele é mais do que necessário.

Os Dementadores


J.K. Rowling, autora da saga Harry Potter, causou nova polêmica recentemente ao criticar o termo “pessoas que menstruam”. A escritora defendeu que a menstruação é algo das mulheres, e deu a entender que pessoas trans enfraquecem o conceito de gênero e a visibilidade da condição social da mulher. Essa atitude foi considerada transfóbica - homens trans, por terem útero, menstruam. E essa não foi a primeira vez que Rowling fez declarações impróprias sobre o tema. Até os protagonistas dos filmes (Daniel Radcliffe, Emma Watson e Rupert Grint) se pronunciaram publicamente criticando a opinião da autora.

Mas algo não parece certo. Em 2017, J.K. Rowling se posicionou contra o presidente dos Estados Unidos Donald Trump: não é surpresa para ninguém que ele tem ideias reacionárias e, se não é, ao menos flerta com a extrema-direita. Rowling chegou a comparar Trump com Voldemort, o vilão da saga de livros, classificando os dois como autocratas. Ou seja, a autora parecia ser uma pessoa minimamente progressista.

Aliás, até já foi acusada de um progressismo meio forçado. Está em curso uma nova série de filmes baseados em spin offs de Harry Potter, onde aparece o personagem Alvo Dumbledore jovem (nos livros originais, ele é um professor velhinho e solteiro). Rowling disse nas redes sociais que o personagem sempre foi gay, algo que não dá para saber apenas pelos livros originais. Há quem diga que ela está forçando a barra para mudar o fato de não haver muita diversidade (especialmente de etnia e orientação sexual) entre os protagonistas da história. 

Ou seja, ainda que com exagero, ela parecia preocupada em entender as mudanças no mundo (afinal o primeiro livro do Harry Potter foi publicado há 23 anos). Mas essa declaração, que não reconhece a realidade das pessoas trans, faz parecer que a vontade de aprender coisas novas tem limite. Parece que não foi capaz de perceber o quanto ainda não sabe sobre esse assunto. Ou seja, perdeu uma bela oportunidade de ficar calada. 

O Patrono


É claro que ela não é a única: toda sociedade precisa debater e, principalmente, escutar as pessoas trans sobre a sua condição. Inclusive, eu diria que ser progressista tem mais a ver com a disposição de conhecer o novo do que ficar gritando palavras de ordem. Mas como vamos conhecer o novo se ficarmos presos em bolhas, com quem só diz o que a gente quer ouvir? Nem conservadores e nem progressistas estão livres desse risco. É aí que entra a ciência.

Sempre existiram estudiosos que tentavam entender e explicar o universo. Mas a ciência moderna é definida por uma coisa: o método. Com algumas variações a depender a área, o método científico consiste em observar os fatos, e tentar explicar o porquê das coisas serem como são. Para isso, é preciso usar a lógica, independente das opiniões. Goste você ou não, a Terra é redonda e sopa é janta sim!

A palavra teoria é usada quando o cientista já conseguiu usar o método para comprovar uma explicação. Quando a explicação ainda não foi provada, ela se chama hipótese. Ou seja, teoria e prática não se separam. Mas é claro que a lógica não pode explicar tudo, como os sentimentos, o belo e o feio, o certo e o errado. É aí que entra a sua opinião. O ideal é que todo mundo esteja sempre aberto a conhecer os fatos, a usar a lógica, e só depois formar opiniões. 

Mas, assim como a boa arte e o jornalismo, a ciência não pode existir numa sociedade que não é democrática. Do contrário, veremos casos como Josef Mengele, um médico que fazia experimentos desumanos e repugnantes na Alemanha nazista, seguindo os interesses de quem governava. Exercite a lógica comigo: quando alguém nega os fatos da ciência, só porque não gosta, significa que essa pessoa está indo contra a democracia. Ainda que sem perceber.

Atila Iamarino é um cientista. Mas ele ficou famoso pelo seu trabalho de divulgação científica: pegar ideias complexas e apresentá-las ao grande público de forma resumida e divertida. Quando ele assume esse papel de divulgador, quer dizer que ele apresenta a ideia com a qual, hoje, a comunidade científica concorda. Essa ideia pode mudar. Aliás, qualquer um que use a lógica pode ajudar essa ideia a mudar. Mas essa ideia não pode jamais ser ignorada por causa da “opinião”.

Goste J.K. Rowling ou não, a transexualidade é um fato. Ainda não há uma teoria que explique por completo essa condição, mas há hipóteses bem encaminhadas. Todos precisamos dialogar com a ciência, do contrário a democracia corre riscos. É ótimo que todos tenham o direito de falar, mas melhor ainda vai ser quando todos tiverem algo útil a dizer. 


PS: os inter-títulos foram uma referência a criaturas mágicas da saga Harry Potter, mas acho que dá pra deduzir o sentido...



Edson Nova é jornalista, músico e eterno vigilante. Toda terça-feira sai um novo artigo sobre o universo da cultura POP. Compartilhe agora e siga nas redes sociais.


Comentários

  1. Massa!! Eu tava falando sobre isso pra algumas pessoas. É triste sim que a J. k. Tenha um pensamento tão conservador em relação a isso, mas o movimento que se estava tendo de boicote e cancelamento a ela e aos livros não justifica. Eu vejo assim: ela é uma pessoa que foi fazer sucesso nos anos 90, criou um livro para as pessoas que são daquela epoca com resquícios dos anos 80 e as pessoas dos anos 2000 se identificaram. É um livro totalmente voltado à fantasia e os poucos relacionamentos, que nem são tão enfatizados, são héteros. Ela já é uma pessoa digamos que "velha" então é mais difícil ela aceitar todas essas novidades sobre gênero. Mas que tem que ser falado que o posicionamento dela está errado para atualidade eu concordo total, pra vermos se ela enxerga de outra maneira.

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    1. Infelizmente, toda uma linha de feministas pensam como ela. Acham que a noção de pessoas trans enfraquece a dicotomia entre feminino e masculino, enfraquecendo assim o feminismo radical. Parece louco, né? Mas ainda existem minorias que, em vez de se unir com outras lutas, querem tudo pra si.

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