A história de um negro que leu



Os artigos que eu escrevo nesse blog sempre estão cheios de opinião, como não poderia deixar de ser. Mas eu tento manter esse espaço mais “jornalístico”, e evito desabafar sobre coisas que me afetam emocionalmente. Mas na pauta de hoje me manter distante não é uma opção. A violência contra pessoas negras tem tantas formas, pode até vir dos nossos iguais, e não tem muito tempo que eu revi a minha própria história.

Foram tantos fatos sobre racismo na última semana que fica difícil organizar as ideias e tentar formular uma análise. Mas eu prefiro focar na violência que me deixou surpreso ao perceber que era algo familiar para mim.

Adriel Oliveira é uma criança de 12 anos, negro e morador de Salvador, Bahia. Ele virou notícia porque sofreu um ataque racista e divulgou o caso com uma resposta elegante e à altura. Mas o que me fez repensar a minha própria história foi o motivo do ataque: Adriel estava lendo. E pior: criando conteúdo para influenciar os hábitos de leitura dos outros. Eu me vi, e doeu.

Ler machuca


Eu cresci numa cidade onde não havia livraria. Os poucos títulos disponíveis estavam nas bancas de jornal e papelarias. De qualquer forma, a condição financeira da minha família não permitiria comprar, por exemplo, os livros do Harry Potter (eu li todos e me tornei potterhead já na faculdade).

A biblioteca municipal, pequena e mal cuidada, virou um lugar onde eu passava minhas tardes. Eu nem queria a carteirinha de empréstimo: eu gostava de sentar no chão de madeira e ler lá mesmo. Eu sempre achei que ler era como ouvir música: é só experimentar de tudo, e achar o gênero que você mais gosta. Mas não é bem assim que funciona no Brasil.

Hoje tudo está muito claro pra mim: consumir e divulgar cultura é o ato mais revoltante que alguém pode fazer. Eu sempre fui do tipo “CDF da turma”: sentava na frente, me esforçava para ter boas notas, ficava amigo ou tinha crush nos professores de humanas. Acho compreensível que alguém assim não seja muito popular. Mas nunca entendi porque alguns colegas sentiam tanta raiva de mim. 

Eu uso muito advérbios de modo, eu escrevo nas provas respostas longas e detalhadas, eu tenho o maior prazer do mundo em me apropriar de conceitos e terminologias para mostrar autoridade intelectual naquilo que defendo. Consequência? Sou taxado de arrogante. E todos os verbos estão no presente porque continuo estudando e isso continua acontecendo.

Diante das ofensas contra Adriel, eu proponho minha hipótese: sempre que um negro assume a postura de referência cultural/intelectual, e se mostra consciente disso, ele vai ser taxado de arrogante, de pretensioso, de alguém que não conhece o seu lugar. Mas há outro fato confuso: também já recebi esse tratamento de outras pessoas negras que se dizem politizadas. Isso exige outra hipótese.

Um pouco de teoria social


Jesús Martín-Barbero é um antropólogo espanhol radicado na Colômbia. Ele escreveu um livro obrigatório nas faculdades de comunicação: Dos meios às mediações. Uma das discussões do livro é: existem correntes intelectuais que buscam definir a cultura de um povo a partir de folclore e tradições tribais, mas ele defende que a cultura de massa é o verdadeiro objeto para entender como povos tão diferentes podem ser unidos sob o nome de uma mesma nação. 

Por sua vez, a cultura de massa, feita para as classes médias urbanas, pode ser lida tanto como uma sofisticação dos folclores, quanto como uma simplificação das belas artes. Resultado: a cultura de massa costuma ser abominada por quem quer preservar folclores, e por quem quer preservar a complexidade da cultura erudita.

Em se tratando de ódio aos que leem, minha hipótese tem dois lados. Ao meu ver, no Brasil, ela começa pela questão social e se intensifica pela questão racial. Primeiro: a elite intelectual ainda não aceita ver gente do povo como igual. Segundo: alguns movimentos sociais veem a cultura de massa e/ou erudita como símbolos de opressão, e as pessoas do povo que se apropriam de linguagem acadêmica estariam negando suas origens. Ou seja, é como se intelectuais de origem pobre (maioria de negros) estivessem entalados entre duas classes, e incompreendidos por ambas.

Empodere uma menina


Quanto antes aceitarmos que existem muitas formas de ser negro e/ou pobre e/ou periférico, mais cedo vamos unir todas as nossas armas contra o racismo estrutural. E essas armas incluem a cantiga de roda cheia de ancestralidade, a canção de massa dançante e açucarada, e as autoridades intelectuais de pele preta.

Outro exemplo de racismo noticiado recentemente reforça minhas hipóteses. Ndeye Fatou Ndiaye, uma jovem de 15 anos, foi vítima de racismo por meio de colegas do Colégio Franco-Brasileiro no Rio de Janeiro. Filha do engenheiro e professor doutor senegalês Mamour Ndiaye, Fatou representa a juventude negra que nasce na classe média alta e numa elite intelectual, mas continua sendo vítima do crime de racismo. Em entrevista ao Fantástico, que foi ao ar no dia 31 de maio, ela deu sua opinião do que pode mudar a realidade da comunidade negra: melhorar a educação, gerando mais consciência de direitos e mais ação.  

Em meio a um vírus que mata sem discriminação, e um estado que mata com discriminação, é claro que o mais urgente é nos mantermos vivos. A morte de George Floyd está desencadeando uma série de protestos por todo os Estados Unidos: não é a primeira vez que um policial branco participa da morte de um homem negro já imobilizado e que não oferecia risco. 

Aliás, acho que o caso do menino João Pedro, morto pela polícia aos 14 anos dentro de casa, deveria causar entre nós o mesmo tipo de comoção. O grito de que vidas negras importam já está entalado e ressentido há muito tempo. Mas enquanto a educação não empoderar todos os pretos do mundo pós-colonial e pós-escravagista, muitas vidas vão ser perdidas de forma torpe.

A foto de capa é da minha sobrinha, Ana Beatriz. Clicada pela mãe, minha irmã Sára: pedagoga, de fé cristã e muito, muito progressista! Bia é um verdadeiro projeto de mudança no mundo. Mini-mulher, negra, baiana: não podemos evitar que ela conheça os preconceitos do mundo. Mas o plano é que ela seja forte, com todos os poderes que a educação pode dar. Ler machuca, mas cura. 


Edson Nova é jornalista, músico e eterno vigilante. Toda terça-feira sai um novo artigo sobre o universo da cultura POP. Compartilhe agora e siga nas redes sociais.

Comentários

  1. Meu Deus! Que texto! Leitura pesada, sofrida, necessária. E a frase final, perfeita! 👏🏽👏🏽👏🏽👏🏽👏🏽👏🏽

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