Taylor Swift para Ministra da Cultura



Já abro pedindo perdão aos swifties porque eu nunca prestei muita atenção na Taylor. Nenhuma crítica ao trabalho musical em si, é que a diva POP pega a gente num lugar que vai além da razão. Mas enquanto personalidade, eu já estou pregando aos quatro ventos que todos a levem muito a sério. Essa mudança se deu graças ao documentário “Miss Americana”. Esse não vai ser um texto de análise do filme: não conseguiria nem se eu quisesse. Mas ele trata de temas oportunos. Diria mais: universais. Diria mais ainda: pertinentes ao Brasil.

O filme estreou no Netflix em janeiro deste ano, e mostra bastidores da vida da artista nos últimos anos. Ela fala sobre assédios que sofreu, distúrbios alimentares, as polêmicas com Kanye West (que agora está na era gospel como a Blogueirinha já fez), e como acabou virando um dos símbolos da política interna dos Estados Unidos.

O documentário foi dirigido pela cineasta Lana Wilson, que está acostumada a lidar com temas polêmicos e caros para as gerações atuais: o documentário “After Tiller” trata de aborto em estágio avançado da gestação, e “The Departure” trata de prevenção ao suicídio. Wilson e Swift deixaram muito claro qual era o objetivo com esse filme: mostrar o ponto de vista de uma mulher dentro do mercado de entretenimento.

Expectativa


Sim, o gênero (assim como a etnia, a orientação sexual, a classe social…) muda tudo. Se isso ainda for uma surpresa, tem um século de informação que  precisa ser atualizada. E não mudam apenas as expectativas da audiência: mudam as relações de trabalho com empresas e a mídia, muda a vida útil de cada canção no mercado, muda o alcance e os poderes políticos.

Tendo isso em mente, ainda houve gente que reclamasse pelo fato do filme não dar voz ao Kanye, ou por mostrar privilégios que Taylor teve durante a vida. É irônico porque o filme fala justamente do peso e da distorção das expectativas. Vinda do sul dos Estados Unidos e da música country, conservadorismo sempre fora uma obrigação. E, quando envolve política, tudo fica ainda mais difícil. Para um artista, ter posicionamento é um direito? Ou um dever? Ou muito pelo contrário?

Nessa era da internet as audiências criaram a cultura dos cancelamentos, que policia atitudes e leva os artistas a prejuízos milionários. Para muitos da elite intelectual, o engajamento político é o pré-requisito que eleva uma obra de entretenimento ao posto de “Arte” (sempre tem algum hipster querendo empurrar uma música ruim só porque ela parece progressista). 

Realidade


Todo o debate é bem vindo quando existe liberdade para as ideias. Mas isso é algo que o Brasil não tem muito costume. Desde o “Bela, recatada e do lar”, a política nacional  parece ter tomado gosto pela volta da figura da mulher sem opinião. E esse é só um exemplo. Quando Roberto Alvim citou o ministro da propaganda nazista a Secretaria da Cultura deixou claras as intenções do atual governo: tirar da arte o direito de falar sobre política.

Aí a questão deixa de ser a opinião do público e dos patrocinadores, e passa a ser a própria cidadania. Taylor sempre evitou opinar por causa de uma estratégia de carreira dentro da sua profissão. Mas, diante de um movimento que quer tirar liberdades e ferir a democracia, a essência da sua profissão fica em risco. A essência é a liberdade de falar mesmo que não se queira falar.

Aquilo que a gente costuma classificar como “posicionamento político” é assumir um dos lados de um debate democrático. No cenário atual, onde a própria democracia é ameaçada, lutar por ela não é um “posicionamento político”, é tomar a única decisão correta possível. 

Você acha que a cultura precisa de apoio do estado e voltar a ser ministério, ou acha que o estado deve intervir menos e deixar a cultura seguir seu curso? Responder isso pouco importa nesse momento. Por ora basta responder se você acha que a liberdade de expressão é um valor humano essencial.


Edson Nova é jornalista, músico e eterno vigilante. Toda terça-feira sai um novo artigo sobre o universo da cultura POP. Compartilhe agora e siga nas redes sociais.

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