Vá tomar no Macunaíma


Na última semana, o estágio de imbecilidade da sociedade brasileira deu mais um exemplo de até onde pode chegar. A secretaria de educação do estado de Rondônia ordenou o recolhimento de dezenas de clássicos da literatura brasileira, sob o argumento de que seriam impróprios para os estudantes. 

Claro que vamos ter uma pequena parte do texto explicando os fatos ocorridos, mas não vamos ficar apenas com isso: mantendo o estilo Nova de ser! Como já ficou provado várias vezes que difícil mesmo é ver o óbvio, vamos precisar falar de novo sobre os perigos da censura. Sinta-se à vontade para pular uma sessão do texto, mas recomendo fortemente que verifique se não deixou nenhuma informação passar!


Toda leitura será castigada


Muita coisa foi dita e desdita pelo próprio governo de Rondônia, confundindo a compreensão dos fatos. O mais correto que ganhou repercussão nacional foram os fatos apurados pelo Jornal O Estado de São Paulo. Professores e funcionários da secretaria de educação denunciaram a existência de um memorando no sistema interno. O documento determinava o recolhimento de 43 títulos de livros das unidades de educação do Estado.

Entre os títulos estavam clássicos como “Memórias Póstumas de Brás Cubas” (Machado de Assis), “Os Sertões” (Euclides da Cunha) e “Macunaíma” (Mário de Andrade). E como o meu título criativo e inteligente sugere, alguns títulos de Nelson Rodrigues também tiveram seu recolhimento ordenado.

O secretário de Educação Suamy Abreu chegou a classificar essa informação como Fake News. Mas logo em seguida a imprensa vazou um áudio atribuído a Rosane Magalhães, gerente de Educação Básica de Rondônia. Enviado por WhatsApp, o áudio afirma que os livros deveriam ser recolhidos sob orientação do secretário Abreu.

Uma reportagem do El País afirma que os professores de Rondônia tem medo de se manifestar por que o estado é um lugar onde os opositores políticos são assassinados. Porém a Academia Brasileira de Letras e o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Ministro Dias Toffoli, afirmaram todo o absurdo dessa situação.

Nenhum livro chegou realmente a ser recolhido. Depois da confirmação de que se tratava de uma True News, o governo de Rondônia decretou sigilo sobre os documentos da secretaria de educação. 


O silêncio mata


É revoltante ter que relembrar algo tão óbvio: governos que têm o poder de controlar a informação trabalham apenas para si mesmos, e colocam toda a população em risco. Um exemplo claro foi a demora do governo chinês a perceber e responder ao surto do novo coronavírus.

O médico oftalmologista Li Wenliang avisou sobre o surgimento do novo vírus em dezembro de 2019 num grupo de ex-alunos da rede social local WeChat. Li foi acusado pelas autoridades locais de perturbar a ordem com notícias falsas, e foi obrigado a assinar um documento que o obrigava a se calar.

Essa demora custou, até agora, a vida de centenas de pessoas, incluindo o próprio Li. Depois de contrair o vírus de uma paciente, sua morte foi confirmada no dia 7 de Fevereiro. Veio então uma onda de revolta nas redes sociais da China, com cidadãos pedindo liberdade de expressão no país. Há anos, esse é o pedido que inflama os protestos nas ruas de Hong Kong, uma província semi-independente.

O governador de Rondônia Marcos Rocha é um clássico representante do pensamento de extrema-direita na política bolsonarista. A China é um exemplo do extremo oposto, embora esse vídeo da BBC News Brasil tenha deixado clara a controvérsia em classificá-la como um país comunista. 

O fato é que qualquer forma de controle da informação pode acabar com todos nós. Conservador nos costumes, progressista na economia, liberal no progressista, econômico no conservador: nada disso é justificativa. Extremos nunca são bem vindos. Se posso dar alguma recomendação, é ler: especialmente o que você deseja criticar. E já que o governo de Rondônia nos lembrou desses clássicos, por que não começar por eles?



Edson Nova é jornalista, músico e eterno vigilante. Toda terça-feira sai um novo artigo sobre o universo da cultura POP. Outros conteúdos também nas quintas e sábados. Siga nas redes sociais.  

Comentários

Mais Lidas