Quem muito abaixa mostra a cauda longa

Os artistas até já podem dar lições às empresas, mas precisam redobrar os cuidados


Não são poucos os trabalhos que tentam explicar as mudanças que vêm acontecendo no mercado de entretenimento. As tecnologias digitais mudaram a forma de produzir, tornando todo o processo mais barato e acessível. Mas mudaram também a distribuição desse material e a forma como as pessoas consomem. Um pequeno caos, mas muito mais organizado do que parece.

Chris Anderson, um físico estadunidense, ajudou a popularizar o conceito de “cauda longa” - no livro com esse mesmo nome. Quando falamos de produtos digitais, o custo de armazenamento para o vendedor é praticamente zero. Assim, uma música ouvida por 1000 pessoas acaba dando no mesmo para o Spotify do que 100 músicas ouvidas por 10 pessoas cada. Colocando isso num plano cartesiano (sim, de volta à 5ª série!), o gráfico faz uma linha bem longa que nunca chega a zero. Essa é a famosa cauda.

Essa lógica de mercado não surgiu do nada. Segundo conta o professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), Leonardo de Marchi, ela é a materialização daquele ditado “se não pode vencê-los, junte-se a eles”. Entre os anos 1990 e 2000 começou o fenômeno das músicas pela internet. O Napster foi a primeira grande pedra no sapato da indústria fonográfica: uma plataforma colaborativa, para compartilhar e baixar músicas em MP3. Qual a postura das gravadoras? Primeiro, processar e prender quem fazia isso. Segundo, imitar esse modelo e ganhar dinheiro com ele.

Se bem que não foram realmente as gravadoras que fizeram isso: foram as empresas de tecnologia digital, como a Apple com o revolucionário iTunes. Mas o importante é que o empreendimento de artistas e produtores independentes virou a forma pela qual a indústria fonográfica contornou a crise com o fim dos altos faturamentos vendendo CD.

Lembra que, com a cauda longa, o Spotify fatura muito com os milhões de artistas que vendem pouco? Já esses artistas que vendem pouco estão faturando pouco mesmo. Percebe? Algo de errado não está certo. Com a produção mais barata, a grande indústria fonográfica deixou esse custo na conta dos artistas, e achou um jeito de faturar até com os independentes. Ou seja: o mercado digital está com o rabo grande, e o artista independente está com o rabo de fora.

Para todo artista: vire publicitário e advogado


Jonas Paulo é cantor, produtor musical e regente, além de dono do NZ Estúdio, um espaço de produção e gestão de música na capital paulista. Com alguns muitos anos de experiência, ele escreve no blog do NZ e costuma dar palestras para novos artistas, que ainda estão construindo um trabalho profissional. Ou seja, aqueles que alongam bastante a cauda do mercado digital.Alguns pontos que ele aborda são estratégias universais para todos que se encontram nesse cenário. Vou destacar dois.

O primeiro tópico já esbarra no maior segredo da grande indústria do entretenimento: forme a sua audiência, conseguindo diferentes níveis de público (desde aquele que apenas sabe da sua existência sem ouvir a música, até aqueles capazes de perder horas falando de você para alguém). Não basta gravar uma música e jogar no meio da cauda: é preciso estudar e investir em divulgação para o público certo.

O segundo é: entenda de direito (na verdade ele recomenda ter um amigo advogado, mas nem todo mundo tá podendo, né?). Ficou bem claro que a justiça dos Estados Unidos foi a arena onde as grandes gravadoras derrotaram e se apropriaram do trabalho de seus rivais. Ou seja, além de garantir e exigir os direitos autorais das músicas, toda e qualquer ideia criativa precisa ser registrada e protegida (produtos transmídia, eventos, projetos, estratégias de marketing...).

Fácil? Certamente não. Possível? Certamente sim. A grande indústria aprendeu a faturar com a internet por meio dos independentes que já se viravam nela. Muitos independentes hoje conseguem trabalhar em parceria com a grande indústria, com muito mais liberdade do que teriam no passado. Todo mundo pode turbinar o seu próprio traseiro, sabendo se divulgar e se proteger. To nessa busca junto contigo. Afinal, trabalho independente não significa trabalho individual.

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